TEATRO - Meninas na melhor FASE
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domingo, 09 de dezembro de 2007
Célia Polesel<br> Reportagem Local 
Uma casa, no centro de Londrina, com cortinas de chita, móveis e objetos antigos, telefone, radiola, máquina de costura, bonecas, espelhos, uma gata preguiçosa chamada Antígona que observa desconfiada os visitantes, mas em pouco tempo está se esfregando nas pessoas. Lá dentro qualquer um se sente na casa da vovó e para reforçar esse sentimento várias senhoras se reúnem todas as semanas. Mas elas não estão ali esperando o tempo passar ou para receber os netinhos e sim para ensairem peças de teatro. As 11 são atrizes e fazem parte da Casa das Fases - Núcleo de Arte e História com Senhoras e Senhores.
O projeto completou 21 anos em novembro e com a maioridade vieram também vários prêmios. Este ano o projeto já foi contemplado com o prêmio Funarte Myriam Muniz. Com o dinheiro o grupo está montando o espetáculo ''Para Dores Femininas'' que será realizado dentro do espaço Organizador Paduhélio (uma caixa preta de 2m de altura por 4 m de comprimento). A peça deve estrear no início de 2008. Em 2006 o grupo também foi contemplado com verbas do prêmio o que rendeu a montagem da peça ''Ave Maria abençoe as velhas loucas pois tu és também.''
Outra premiação importante ocorreu no Teia Encontro de Pontos de Cultura realizado em Belo Horizonte em novembro. O diretor do grupo, João Henrique Bernardi, conta que o Casa foi premiado na categoria Escola Viva por realizarem apresentações dentro de escola promovendo assim a integração de gerações.
Eles fazem oficinas com pessoas da terceira idade e trabalham com caixas de memórias, depois essas pessoas apresentam essas caixas nas escolas, promovendo a integração com as novas gerações e valorizando a história dos mais velhos.
Bernardi faz questão de ressaltar que apesar dos prêmios e da longevidade do trabalho têm dificuldade para fazer as pessoas entenderem que eles são atores, independente da idade. ''As pessoas não percebem que não estamos aqui fazendo projeto para que elas tenham onde passar o tempo, estamos fazendo teatro, somos atores e atrizes.'' Ele conta que a maioria dos espetáculos se baseia nas histórias e memórias das meninas, que é como eles chamam as atrizes. Além dos espetáculos há a produção de vídeos com os depoimentos o que auxilia a guardar essas memórias.
Para 2008, além dos espetáculos, haverá a exibição da radionovela ''Em busca da felicidade'' no site do Casa (www.casadasfases.wordpress.com), a produção já está na fase de finalização e um dos dados interessantes é que um microfone da época das radionovelas foi restaurado para ser utilizado. Outro projeto é o lançamento de um livro contando a história do grupo e a metodologia de trabalho desenvolvida por eles. ''Queremos que outras pessoas possam utilizar a nossa experiência e se beneficiar da metodologia que construímos.''
Além dos espetáculos o projeto também realiza oficinas gratuitas de teatro para a terceira idade, em Londrina e nas cidades da região, a maioria dos participantes são mulheres com mais de 50 anos. Muitas nunca haviam tido contato com o teatro. Das 11 que integram o grupo atualmente, a maioria tem a mesma história foram em busca de realizar o que desejavam depois que os filhos estavam crescidos e o marido já havia falecido. Atualmente duas são casadas, uma é solteira.
Jandira Testa conta que sempre gostou de teatro, mas só foi realizar o sonho de atuar depois de casar todos os filhos. Ela diz que eles a apóiam muito e sempre vão às apresentações. Jandira ressalta que além de fazer amigos o teatro é um exercício para a memória.
Para Zoraide Dantas, um dos benefícios é ficar mais desinibida. ''Era muito tímida, para mim está sendo ótimo. O teatro é a minha vida e esse grupo é como uma família.'' Cecília Garcia Souza é uma das poucas casadas e conta que desde pequena queria ser atriz, via as apresentações de teatro feitas no circo e sonhava que representava o personagem principal, mas depois acabou guardando o sonho. ''Aos 52 anos comecei a fazer teatro e acordei para a vida. Cada peça que você faz aprende mais, é sempre um novo desafio.'' No começo o marido não gostou muito da idéia, mas hoje costuma ficar pronto para levá-la aos ensaios mesmo antes dela.
Até a família de Rosa Galindo percebeu a mudança depois que ela começou a fazer parte do grupo. ''Minha família apóia muito e minha filha diz que sou outra pessoa, converso com todo mundo e sou muito mais feliz. Enquanto viver quero continuar a fazer teatro e me aperfeiçoar cada vez mais.'' Lilian de Luca enfrentou um pouco mais de dificuldade para poder fazer parte do grupo porque a mãe não queria que participasse, mas ela conta que começou escondido. ''Hoje já melhorou, ela até manda lembrança para o 'meu povo', é até engraçado, quem sabe ainda consigo fazê-la ir a um espetáculo.'' Todas concordam que o teatro é parte fundamental da vida delas.


