A versão 2007 da Festa Literária de Parati se encerrou em grande estilo, na semana passada. Escritores leram pequenos trechos de suas obras. Organizadores falaram dos resultados da quinta FLIP. Apesar das críticas, é claro, o evento já deu certo. Paraty recebeu um público predominantemente do eixo Rio-São Paulo. Um bom número de estrangeiros justificou a opção de tradução simultânea em português. Os paratienses vibraram com a programação; os comerciantes locais festejaram o movimento do caixa.

No decorrer da festa, converso com Mário Bortolotto, num café de esquina na pracinha principal da cidade - o clima, em dado momento, torna oportuno parafrasear Hemingway: Paraty é uma festa móvel!

Você viveria numa cidade paradisíaca como esta, Mário?
Olha, estou desde 1996 em São Paulo. E pretendo ficar cada vez mais lá. Preciso disso. Não conseguiria mais viver sem Sampa. Em lugares pacíficos não se faz boa arte, como disse o Denis (referindo-se ao americano Denis Lehane, que tem na periferia de Boston-EUA, onde reside, as vertentes dos seus romances policiais, os quais diz ser o romance social de nossa época; Lehane participou de painel com o mexicano Guillermo Arriaga, roteirista de filmes como ''21 gramas e Babel). Sampa é cruel mas é muito acolhedora também. Em Paraty é gostoso vir passar um fim-de-semana, vir para a festa literária. Esta, aliás, é a primeira FLIP que venho. Mas não viveria aqui. A não ser que fosse para ficar um mês, digamos, para escrever um livro, por exemplo.


Num dos mais descontraídos painéis apresentados no dia em que se encerrou o evento de literatura, Bortolotto e Bosco Brasil, mediados por Paulo José, colocaram o teatro no centro do palco da tenda dos autores. O diretor-ator Paulo José, embora com a saúde abalada, reviveu aos olhos de todos o seu inconfundível talento cênico, improvisando, em brevíssima leitura, um auto de Natal, de Mário Bortolotto, com o qual dialogou. A descontração dos artistas - os três têm ligação com o cinema - chegou ao clímax numa engraçada comparação do conceito de teatro com o do cinema. Bortolotto lembrou uma expressão corrente no dia-a-dia das pessoas e até entre certos profissionais das artes cênicas que, numa alusão a possíveis trejeitos caricatos de alguém conhecido dizem: ''Você está muito teatral, meu caro''. Paulo José frisou que ainda hoje muita gente considera ''teatro coisa de vagabundo, de viado''. E Bosco Brasil arrematou debochando do conhecido elogio prestado, por exemplo, a uma bela locação ou cenário de teatro: ''Mas isso está ci-ne-ma-to-grá-fi-co!''

Faço mais perguntas a Bortolotto, no café da praça. Você se considera um cara de sucesso?
Se eu quisesse poderia fazer esse tal sucesso, sim. Depois que recebi alguns prêmios, senti ser mais respeitado, mais entrevistado. Prêmio é uma coisa que te dá maior visibilidade. O problema é levar (a público) uma peça. Falta grana. Falta tudo. Saio pouco de São Paulo por falta de grana mesmo. Mas eu não mudo um centímetro do que faço, não faço concessão. Tenho de fazer uma porrada de outras coisas para poder sobreviver. Atores que dirijo, iluminadores, cenógrafos, vão trabalhar também em outras peças. Sou um cara muito desorganizado, caótico, e não vou me preocupar com produção, com política. Não quero pensar em ganhar dinheiro, em como ganhar dinheiro, quero é fazer, encenar meus próprios textos e provar que é possível fazer isso, mesmo sem dinheiro. Faço a minha parte. Estou satisfeito com o meu trabalho, poderia ser mais, mas não vou mover uma palha para que isso aconteça.

Quais prêmios você ganhou e pode considerar importantes?
Em 2000, ganhei o troféu APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) pelo ''conjunto da obra'' e o prêmio Shell pelo texto ''Nossa vida não vale um Chevrolet''. Em 2003, recebi o prêmio de ''melhor ator'' no Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte, pelo meu trabalho no curta ''Enjaulados'', de Luiz Montes.

Você se situa como um autor paranaense, londrinense?
Não me preocupo em ser regionalista, não tenho essa necessidade. Acho legal ser de Londrina, cidade dos meus amigos Augusto Silva, Domingos Pelegrinni, Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak, Maurício Arruda Mendonça, Márcio Américo, Karen Debertolis, Célia Musilli...

O seu processo criativo, mais ou menos como é?
Trabalho sempre depois do almoço, até umas 8 da noite. Depois, das 9 às 5 da manhã bebo. Se eu não beber eu paro de escrever. Tudo depende da fase, da vida emocional. Estou numa fase que não consigo escrever com disciplina. Tenho 3 romances parados. Romance exige lógica, sequência. Aproveito a fase e trabalho com fragmentos. No meu CD (Cachorro também gosta de bourbon - gravado no banheiro de sua casa, num pequeno aparelho de 8 canais). Faço poemas, dirijo. Tem fases que eu sento e escrevo a tarde inteira e complemento bem o meu trabalho.

A considerar o caráter libertário, provocador, de Mário Bortolotto e pela irreverência do seu texto, costumeiramente a mídia o coloca ao lado de escritores rotulados como marginais: os beats todos, Charles Bukowski, John Fante, Jack Kerouac, Bhurroughs, Ferlinghetti. Quanto a isso, Mário diz: ''Me sinto bem acompanhado pelos malditos. Não me envergonho de estar no meio deles''.

O dramaturgo paranaense no momento dirige a peça, que também escreveu, ''Uma pilha de pratos na cozinha'', em cartaz até 26 de agosto, no Espaço dos Satyros 1, em São Paulo. ''O texto é sobre a morte. Uma garota está com doença terminal, encontra com três amigos que dão força pra ela, cuidam dela. Encontrei pra isso quatro atores excelentes, que me deixam muito orgulhoso'', conta Mário.

Sobre o futuro imediato, o autor fala que ''hoje vai ter na TV Cultura de São Paulo, às 9 da noite, um texto meu: 'Billy, a garota'. A novidade é que eles vão apresentar o making off do trabalho, usando músicas do 'Cachorro também gosta de bourbon', que eles tiveram a iniciativa de escolher. Será no programa Dramaturgia, supervisionado por Antunes Filho''.

E na próxima sexta-feira, deve inaugurar em Londrina o espaço Cemitério de Automóveis. Haverá o lançamento do álbum de fotos dos 25 anos do grupo. No sábado, 21, terá show com a banda Saco de Ratos Blues, no novo espaço. Dia 22, domingo, atores de Londrina lerão o texto Brutal, escrito há quatro anos por Mário Bortolotto.

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