TEATRO - Mãos clássicas, carreira longeva
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terça-feira, 06 de setembro de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Seria apenas outra montagem de um clássico da dramaturgia nacional, não fosse algo pitoresco envolvendo o protagonista. Hoje, às 20h30, o ator Jackson Paris faz única apresentação, no Teatro Zaqueu de Melo, em Londrina, do espetáculo ''As Mãos de Eurídice''. Será a 1.586º vez que ele ocupa um palco com a peça, cuja maratona iniciou-se há 42 anos, mais precisamente no dia 6 de março de 1963, em Campinas (SP). O monólogo de dois atos, escrito por Pedro Bloch, merece atenção não só pelo caráter antológico, mas também pela disposição de Jackson Paris em levá-lo a todos os cantos do Brasil. ''O espetáculo exige muito e por isso o ator tem que estar muito bem preparado'', diz Jackson, 61 anos, dos quais 46 anos de carreira. Desde que passou a fazer a peça, o ator não fez nenhum outro trabalho teatral paralelo.
''As Mãos de Eurídice'' é um drama existencial. Narra as desventuras do escritor Gumercindo Tavares que, por não encontrar ressonância em sua família, decide abandoná-la e fugir com a bela e ambiciosa jovem Eurídice. Os dois vão para Mar Del Plata, na Argentina. Ele a cobre de jóias e caros presentes. Ela, por sua vez, torra a fortuna do amante em cassinos e o leva à bancarrota. Gumercindo propõe vender as jóias para sair da ruína financeira. Eurídice nega. ''Ou seja, acabou o dinheiro acabou o amor'', raciocina Jackson Paris.
Sete anos depois, Gumercindo retorna arrependido à sua família e encontra tudo transformado a ex-esposa tenta se recompor na vida, apesar de um de seus dois filhos, Ricardinho, morrer de tuberculose. Em meio à tragédia, Eurídice reaparece e ele novamente pede as jóias. Nova negativa. Transtornado, Gumercindo a mata. O que acontece a partir de então, o público deve conferir. ''Esse espetáculo tem uma mensagem fora de série que leva à reflexão'', diz o ator.
O texto foi escrito por Pedro Bloch em 1948 e estreou dois anos depois, em 13 de maio, no Rio de Janeiro, com o ator Rodolfo Mayer (1910-1985). O sucesso foi tanto que, de um pequeno auditório, o espetáculo foi parar no Teatro Municipal da capital carioca e em outros nobres locais do País calcula-se cerca de cinco mil apresentações no Brasil e exterior. Foi a partir dessa encenação, no começo da década de 60, que Jackson Paris decidiu também encenar ''As Mãos de Eurídice'', que passou a ser o primeiro monólogo encenado no Brasil. Segundo Paris, a peça ficou 11 anos em cartaz na Broadway com Yul Brynner,®MDBO¯ ®MDNM¯ e outros oito anos no Japão e em Madri.
Esse não é o único texto de Pedro Bloch que Paris encenou anteriormente havia subido ao palco com ''Morre um Gato na China'',''Os Inimigos não Mandam Flores'' e ''Esta Noite Choveu Prata''. Ficou quatro anos, dos 16 aos 20 anos, na Companhia Teatral Palmeira Sobrinho. O ator também participou de algumas produções de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, entre elas a cult ''Essa Noite Encarnarei em Seu Cadáver'' e ''Mundo Mercado do Sexo''.
Paulista de Alvares Florence, Jackson Paris está radicado na capital paulistana. Se pensa em montar outro espetáculo? Não. A veneração por esse texto de Pedro Bloch é maior que qualquer pretensão. ''Eu vivo desse espetáculo'', diz taxativo. Em outras palavras, o dinheiro para subsistência vem, com perdão do trocadilho, das mãos dessa certa Eurídice.
Serviço
Monólogo ''As Mãos de Eurídice'', com Jackson Paris. Apresentação única hoje, às 20h30, no Teatro Zaqueu de Melo (Av. Rio de Janeiro, 430), em Londrina. Ingressos: R$ 15,00 e R$ 10,00 (estudantes e aposentados)


