Curitiba Marcelo Marchioro já havia mergulhado no universo minimalista e enigmático do escritor Dalton Trevisan há três anos, quando levou para o palco o premiado monólogo ''O Ventre do Minotauro''. Agora repete a experiência transformando ''Pico na Veia'' (Editora Record) em teatro. Dessa vez, com um acompanhamento ainda maior do autor. Marchioro garante que o ''Vampiro de Curitiba'', como Trevisan é conhecido numa alusão a um dos seu livros e principalmente pela sua reclusão, está diferente, ''menos ermitão''. O escritor acompanhou de perto a seleção dos mais de 30 contos que compõem o espetáculo. A maioria tirados de ''Pico na Veia'', outros selecionados entre as dezenas de livros publicados ou de folhetos ainda inéditos. E mais: acompanhou também os ensaios do espetáculo que estréia hoje.
Produzida pelo Teatro de Comédia do Paraná, do Centro Cultural Teatro Guaíra, o espetáculo está sendo desenhado há dois meses. No palco autores experientes que já encenaram outras peças orquestrados por Marchioro, como Silvia Monteiro e Zeca Cenovicz. São cinco atores (além de Silvia e Cenovicz, Rodrigo Ferrarini, Claudete Jorge e Raphael Rocha) uma das fundamentais diferenças em relação ao ''Ventre do Minotauro'', encenado apenas por Mario Shoemberg. ''Muita coisa mudou entre um espetáculo e outro'', lembra o diretor, mas a essência de Trevisan, essa única, foi mantida. ''O texto de Dalton abre um leque de opções e essa também foi nossa escolha: construir uma proposta multifacetada'', conta Marchioro.
O diretor ressalta que este é um espetáculo de autor e ator, por isso o espectador não deve esperar alegorias. ''O cenário é mínimo, composto por escadas pretas, a luz é branca e azul e o figurino são ternos pretos. Minha intenção foi priorizar a postura do ator e o texto, o resto não tem nenhuma importância'', resume Marchioro. Os contos selecionados refletem o universo de Dalton com seus personagens peculiares, sua cidade sombria (Curitiba, claro. ''essa grande favela do primeiro mundo'' , conforme o autor cita no conto 18), seus conflitos e adultérios, sua melancolia e desesperança. São minicontos, fragmentos, histórias curtas mas boas e certeiras. E como Dalton Trevisan mesmo escreve no conto nº 3 do livro que inspirou a peça: ''Um bom conto é pico certeiro na veia''.
Nascido em 14 de junho de 1925, o curitibano Dalton Jérson Trevisan construiu uma postura enigmática ao longo de sua carreira. Quando ainda estudava Direito e costumava discutir a realidade social, política e cultural do País e do mundo nas marquizes da Boca Maldita, criou o hábito, cultivado até hoje, de lançar seus escritos em folhetos, acessíveis apenas ao amigos. São esses poucos, alguns mantidos até hoje que fazem parte do restrito círculo do escritor de hábitos reclusos e extremamente avesso à imprensa.
Em suas dezenas de livros publicados, quase todos pela Record, dedicou-se exclusivamente ao conto (só teve um romance publicado: ''A Polaquinha'', também levado ao teatro numa temporada de seis anos), e se transformou no maior mestre brasileiro no gênero. Em 1996, recebeu o Prêmio Ministério da Cultura de Literatura pelo conjunto de sua obra. Em 2003, dividiu com Bernardo Carvalho o maior prêmio literário do país o 1º Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira com o livro ''Pico na Veia''. O livro é composto por 205 contos de tamanhos e formas variadas.
O espetáculo inspirado no livro homônimo permanece em cartaz em Curitiba até o início de junho, às vésperas do autor completar 80 anos. Depois disso segue temporada pelo interior do Paraná, incluindo apresentações já confirmadas no Festival Internacional de Londrina.

Serviço:
- Espetáculo ''Pico na Veia'', de Dalton Trevisan, com direção de Marcelo Marchioro. Estréia hoje, às 21 horas, no Guairinha, em Curitiba. Em cartaz até 29 de maio e 1 a 5 de junho. De quarta a sábado às 21 horas e domingo às 19 horas. Ingressos: R$ 5,00.

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