Curitiba - A relação entre a vida selvagem dos lobos e a marginalidade humana foi descrita no começo do século passado pelo escritor norte-americano Jack London. Nem por isso, o tema perdeu a atualidade. O livro ''Caninos Brancos'', escrito por London e lançado em 1906, foi escolhido pelo diretor curitibano Marcelo Munhoz para ser levado ao palco. E com uma peculiaridade. Produzido com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e com toda uma estrutura profissional, a montagem tem participação de crianças e adolescentes da Vila das Torres, comunidade carente da capital paranaense.
Essa é a primeira vez que essas crianças participam de um espetáculo teatral, que também tem no elenco e na produção, atores profissionais. A montagem está sendo apresentada em escolas municipais, mas ganhou uma temporada no teatro Pé no Palco, em Curitiba. O espetáculo mescla ficção e realidade, já que o texto do escritor americano, morto em 1916, é confundido com a experiência de vida das próprias crianças e adolescentes que participam da montagem.
Os atores-mirins foram selecionados dentro de um outro projeto tocado por Munhoz e que já está bem consolidado em Curitiba: o Olho Vivo, que divide suas atividades entre aulas de cinema e vídeo (dentro do tema ''Minha Vila filmo eu'', que já produziu curtas premiados) e teatro. O espetáculo começou a ser desenhado no ano passado e juntou duas propostas: o curso de interpretação do Olho Vivo e o projeto pessoal de Munhoz, aprovado pela lei municipal, para a montagem de ''Caninos Brancos''. ''Eu tinha esse projeto aprovado, mas ele só faria sentido se eu pudesse unir as duas coisas'', conta o diretor.
Por isso, logo no início da oficina de interpretação, realizada gratuitamente no Clube de Mães da Vila das Torres, Munhoz já propôs aos alunos o estudo do texto de London. ''Foi muito interessante porque as crianças se identificaram muito com o texto'', conta. ''Caninos brancos'' mostra a adaptabilidade social de uma criatura selvagem - o cachorro-lobo do título - à civilização.
As agruras dessa experiência podem ser interpretadas como um apelo pela regeneração social dos marginais humanos. Situação que, para Munhoz, teve identidade imediata das crianças que vivem em situação de risco. ''Eles fizeram a ponte com a questão da própria marginalidade, pois vivem a mesma dificuldade. Convivem com a violência diariamente'', analisa o diretor.
O projeto começou efetivamente há quatro meses, quando cerca de 15 alunos começaram o curso de interpretação. A turma foi reduzindo e aconteceu uma seleção natural dos estudantes que hoje integram o elenco do espetáculo. ''Muitas crianças se inscrevem no curso atraídas pelo glamour da interpretação. Relacionam muito com a televisão. Quando percebem que é um trabalho é bem diferente, muitos desistem'', conta Munhoz.
Outro fator que caracteriza a desistência do curso, que já existe desde 2003, é econômico. ''Muitas crianças já estão numa idade que precisam levar dinheiro para casa e acabam optando por realizar cursos técnicos'', revela.
Mas os que ficam, trabalham com afinco e mostram resultados. Essa é a primeira vez que os alunos da oficina de interpretação participam de uma montagem com profissionais de peso do cenário teatral da cidade. Além do diretor Marcelo Munhoz, que acumula bons trabalhos como ator e diretor, as crianças trabalham com dois atores profissionais: Alessandra Flores e Vinícius Mazzon. Além dessa experiência, a ligação de ''Caninos Brancos'' com o Projeto Olho Vivo, deu a montagem elementos de audiovisual e documentário.
O espetáculo começa com uma projeção dos adolescentes se apresentando e mostrando o lugar em que vivem. Ao longo da peça imagens da cidade, desenhos e sombras interagem com os atores para construir a narrativa. ''Foi um processo incrível, mesmo para os profissionais mais experientes'', conclui o diretor.
A montagem teve pré-estréia no final do ano passado. No início deste mês fez temporada de apresentações gratuitas no Clube de Mães da Vila das Torres e em unidades da Fundação da Ação Social do Paraná (FAS), além de um asilo e um hospital psiquiátrico. Durante todo o mês de janeiro, a montagem está sendo apresentada em escolas municipais, mas o público em geral também vai ter acesso ao espetáculo. ''Caninos Brancos'' estréia para o público no próximo sábado e fica em cartaz até o dia 4 de fevereiro.

Serviço:
- Espetáculo ''Caninos Brancos'', baseado na obra de Jack London, no Espaço Pé No Palco (Rua João Negrão, 2340), em Curitiba. Em cartaz até dia 4 de fevereiro, sempre aos sábados e domingos, às 16 horas. Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00 (bônus ou uma lata de leite em pó, que será revertida para o Clube de Mães da Vila das Torres).

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