Sorrir mesmo doente, alegrar-se em um hospital, encontrar um ''doutor palhaço'' com um nariz vermelho e muita disposição para brincar seja na enfermaria, no pronto socorro ou na UTI. Seria isso cena de um filme ou sonho de uma mente infantil? Para a felicidade de quem precisa passar alguns dias internado em um hospital, é exatamente isso que acontece quando entram em cena os palhaços do Plantão Sorriso, que atendem em quatro hospitais de Londrina. Por todo o país, estima-se que existam quase 200 iniciativas de integrar palhaços em ambientes hospitalares.
O primeiro grupo de doutores palhaços surgiu em Nova Iorque em 1986. Hilary Chapalin, integrante do Clown Care Unit, conta que Michael Christensen foi o precursor de tudo. ''Uma vez ele estava abrindo a porta de uma UTI e cruzou com um médico que disse: 'UTI não é lugar de palhaço'. E ele respondeu: 'Também não é lugar de crianças''', assim nascia o grupo que hoje atua em 17 hospitais de nove cidades norte-americanas e possui 85 artistas. Hilary está em Londrina participando do Festival Internacional de Londrina (Filo) e apresenta junto com outros palhaços o ''Cabaret Clown'' no dia 23, às 20 horas, no Circo Funcart.
Hilary relembrou que os profissionais do hospital sugeriram que eles trabalhassem por mais algum tempo. ''Ficaríamos mais seis semanas e estamos até hoje'', brinca. Com o tempo, foram nascendo os ''desauxiliares e desnutricionistas'' que ajudavam os doutores palhaços no atendimento. ''Para ser um doutor palhaço tem que ter algo especial'', observa Hilary. E ela ainda revela: ''É fascinante ver a criança, as famílias e os funcionários, que estão envolvidos com seus próprios problemas, mudarem pela introdução de alguma coisa alegre. E acho que em minha vida isso me ajudou a ver o mundo de uma maneira diferente''.
Soraya Saíde, integrante do grupo paulista Doutores da Alegria (pioneiro no país), cita alguns procedimentos adotados por eles, como a ''extração de miolo mole'' e ''cirurgia de chulé entalado''. Ela exemplifica a colaboração que esses ''doutores'' levam ao hospital com um caso real vivido pelo grupo. ''Um menino passou 22 dias internado, recebeu alta e a mãe estava na porta com pressa de ir embora. Ele ficou na cama esperando a gente dar alta para ele (que no caso é dada por um palhaço bem alto). Nós demos a alta mas ele toda hora recomeçava a brincadeira sem querer ir embora. Então falei: 'Nicolas, a alta já foi dada e sua mãe está esperando'. E ele respondeu: 'Não palhaço, não vai embora porque eu descobri que gosto de dar risada'''.
O criador do grupo paulista, Wellington Nogueira, define a rotina: ''Cada encontro é um espetáculo''. Em 1988, ele foi para Nova Iorque onde trabalhou com o Clown Care Unit e, em 1991, voltou ao Brasil querendo montar um grupo semelhante. Lucina Bazzo, do Plantão Sorriso, acrescenta que o trabalho é baseado no improviso. O grupo londrinense foi inspirado no Doutores da Alegria. ''É uma epidemia'', brinca Wellington.
Em cena, é possível contracenar com a fita métrica para medir a febre e até ouvir as batidas do coração pela cabeça. José Pellucchi, do grupo Payamédicos da Argentina, destaca que as relações dentro do hospital mudaram depois da entrada dos palhaços. ''Muda a cor, o ânimo das famílias. É uma medicina com mais contato humano'', classifica. O grupo argentino é diferente dos brasileiros porque todos os integrantes são da área médica, entre estudantes, psicólogos e médicos.
A maioria dos grupos visita os hospitais duas vezes por semana e dedica ainda um outro dia para conversar, trocar idéias e se preparar para os novos atendimentos. Wellington Nogueira revela que sonha com o dia em que os ''médicos palhaços'' serão reconhecidos como profissionais de verdade. ''A pessoa vai fazer artes cênicas, se especializar em arte de palhaço e depois se pós-graduar em besterologia'', aponta. Ele informa que em todo mundo há cerca de 300 iniciativas nesse campo. ''Só na Alemanha há mais de 100'', contabiliza.

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