Curitiba - Uma das características do Festival de Teatro de Curitiba é a rotatividade dos espetáculos. Quando uma montagem agrada é preciso correr para tentar comprar ingressos antes que eles acabem ou antes do espetáculo encerrrar as apresentações no evento. Foi assim com ''Otelo da Mangueira'', uma das montagens que mais agradou até agora e teve apenas três apresentações dentro do FTC. Uma espetáculo, no entanto, é uma exceção a essa regra dentro da Mostra Contemporânea. ''Hygiene'', da companhia paulista XIX está em cartaz desde o dia 16, início do festival, e prossegue até domingo, data de encerramento do evento.
A promissora companhia é jovem em todos os sentidos e é destaque dentro do FTC. O grupo, formado por atores que tem em média vinte e poucos anos, surgiu em 2001, dentro do curso de arte dramática da Universidade de São Paulo (USP) para montar o espetáculo ''Hysteria''. A montagem esteve em cartaz no Fringe o ano passado e retornou na mostra paralela este ano. Fez tanto sucesso que levou a companhia a participar da Mostra Oficial. ''Na verdade, não há tanta diferença entre a mostra oficial e do Fringe. A maior é que na mostra oficial os grupos tem mais estrutura. Além disso, o Fringe depende da bilheteria e as companhias precisam dividir o espaço com outros grupos'', analisa o diretor da companhia XIX, Luiz Fernando Marques, 28 anos.
Essa divisão não aconteceu com o grupo paulista, outra excessão. Em cartaz na Casa Vermelha com os dois espetáculos, sendo que ''Hysteria'' já encerrou suas apresentações no FTC deste ano, a companhia, no entanto, enfrentou outros problemas. ''Acho que é difícil para produção local entender a necessidade das companhias que não trabalham com palco italiano e espaços convencionais'', analisa o diretor. O próprio espetáculo ''Hygiene'' não só não utiliza o palco convencional como invade as ruas, a entrada da Igreja do Rosário e alguns casarões locais. ''Acho que essa é um reflexo do teatro contemporâneo. Os grupos estão mais completos, utilizando espaços alternativos e se envolvendo em todos os aspectos da produção'', revela.
No caso de ''Hygiene'', o grupo aproveitou a parte antiga da cidade para contextualizar a viagem histórica proposta no espetáculo. A montagem mostra a vida de diferentes famílias, de diversas origens, que viviam em cortiços e que foram obrigadas a deixar suas casas em nome do progresso. A ambientação é o Rio de Janeiro, mas reflete o processo de urbanização ocorrido em quase todas as grandes cidades do país no final do século 19. A época aliás, inspirou o nome do grupo.
Segundo um dos dramaturgos da companhia, Renato Bolelli, foi neste período que ocorreu a formação do comportamento e da sociedade brasileira. ''No Brasil temos religiões, etnias e opiniões interagindo sem conflito. São diferenças a cada esquina. A intenção do grupo não é julgar o valor dessa cultura, mas provocar a reflexão do público sobre as pessoas no espaço onde vivem'', falou. Ele conta ainda que, para montar os espetáculos, o grupo consulta fontes como jornais e faz entrevistas com moradores.
Enquanto a companhia XIX continua suas apresentações até o final do festival, outras montagens que tiveram destaque já se despediram do evento. Hoje, o espetáculo que era para ser a grande estrela do festival foi cancelado. ''O Amor Imortal de Antonio e Cleópatra'' ficou fora do evento porque um dos atores, Caco Ciocler, foi convocado pela Rede Globo para gravar as últimas cenas da minisérie JK. Na grade oficial, além de ''Hygiene'', está a segunda e última apresentação de ''Sonho de um Homem Ridículo'' e ''A Mulher Desiludida'', dois monólogos.
''A Mulher Desiludida'', estrelado por Guida Vianna tem direção de Gilberto Gawronski e conta a história de uma mulher de meia idade, Murielle. Ela está sozinha em casa na noite de Ano Novo e se prepara para um encontro no dia seguinte com o ex-marido para tentar reaver a guarda do filho. A dona de casa perdeu o direito de ficar com o garoto depois do suicídio da filha, de 17 anos. O 15 Festival de Teatro de Curitiba prossegue até domingo e conta ainda com duas estréias. ''Amores Surdos'', amanhã, e '' Fala Zé'', no sábado. Até domingo, são 19 apresentações dentro da mostra oficial.

Serviço:
- 15º Festival de Teatro de Curitiba. Programação completa no site www.festivaldeteatro.com

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