TEATRO - Histórias picantes da Idade Média
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sexta-feira, 22 de abril de 2005
Equipe da Folha 
Curitiba - Imagine a cena: sete jovens mulheres e três jovens homens reunidos num castelo nos arredores de Florença, fugindo da peste, em pleno século XIV. Sem ter muito que fazer, estabelecem uma brincadeira: cada um terá de contar dez histórias, picantes, de preferência. Está criado o ambiente para o surgimento de uma obra-prima da literatura medieval: 'Decamerão', livro do italiano Giovanni Boccaccio que marcou época, dividiu opiniões e influenciou para a sempre a prosa italiana. É claro que esta reunião de beldades não passou da imaginação de Boccaccio. Mas não deixa de ser saboroso conferir o talento do escritor ao conseguir dar uma personalidade a cada narrador e, portanto, a cada narrativa.
A prosa de Boccaccio foi levada para o palco pelo grupo Núcleo de Arte e Cultura, de Brasília, que se apresenta até amanhã em Curitiba. Dentre as 100 novelas que integram o livro original, foram selecionados três contos, adaptados por Miriam Virna, que também está em cena e dirige o espetáculo. Ela conta: ''São duas comédias e um conto que é, originalmente, narrado em clima bastante trágico, na linha Romeu & Julieta mesmo'', compara a diretora'.
Na montagem, os protagonistas de cada uma das histórias dão nome aos quadros representados em cena. Assim, a peça começa com ''Maseto'', nome do rapaz bonito e esperto que, ao saber de um convento onde vivem jovens e virgens freiras, decide empregar-se como jardineiro, fingindo-se surdo-mudo. É claro que acontece de tudo e o moço dorme com todas as irmãs, da madre superiora à mais jovem noviça. A novela é apreciadíssima e integra a seleção de Flávio Moreira da Costa para 'Os cem melhores contos de humor da
literatura universal', editado pela Ediouro, em 2001.
O espetáculo ainda apresenta versões para dois outros contos de Decamerão, batizados pelo elenco de Alibeck e Tancredi. O primeiro conta a história de uma mocinha que, apesar de não ser cristã, quer muito servir a Deus. No caminho de busca deste serviço sagrado, ela encontra um ermitão que diz que a melhor maneira de fazê-lo é enviar ''o diabo para o inferno'', ensinando uma prosaica maneira de realizar o projeto.
No terceiro e último quadro do espetáculo o grupo conta a história de amor de Risoleta, um amor proibido por Tancredi, pai da moça, que alimenta por ela um amor doentio e possessivo. Para evitar que a menina fuja e se case com o amante, o pai manda matar o namorado e ordena que se sirva o coração
dele numa taça de ouro à mocinha.
O grupo decidiu não fixar muito a ação num tempo histórico e tampouco modernizar a trama. Assim, o espetáculo ocorre num tempo fictício, que acolhe tanto elementos contemporâneos quanto outros que fazem alusões à Idade Média. As frias paredes dos castelos, por exemplo, estão simbolizadas no cenário por um jogo de ícones de consumo de nossos dias: latas de refrigerantes e cervejas.
Serviço:
- ''Decamerão - Histórias Quase Santas'', no Teatro da Caixa. Hoje às 21 horas e domingo às 19 horas. Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00 (Rua Conselheiro Laurindo, 280). Informações (41) 321 1999.


