O diretor Enrique Diaz, da Cia. dos Atores, do Rio de Janeiro, racha Hamlet para que William Shakespeare saia de dentro do mítico texto na estréia de hoje, às 20 horas, no 38º Festival Internacional de Londrina (FILO).
A montagem ''Ensaio.Hamlet'' traz ao festival, o grupo com maior tempo de trabalho no Rio de Janeiro, mantendo sempre o mesmo diretor e núcleo básico de atores, há 15 anos.
Os atores não ficam em apenas um personagem do texto, que narra a trajetória de Hamlet, jovem que recebe a visita do fantasma do pai, cobrando vingança por ter sido assassinado pelo irmão. O elenco flutua entre os papéis, como que pela própria invisibilidade da vida.
Diaz afirma que não se sentiria capaz de dar um depoimento sobre Hamlet. Ele quis que a Cia. dos Atores se relacionasse com as perguntas de todos os que contemplam o oceano da dramaturgia shakespeariana.
Rachado ao meio pelo diretor, Hamlet não é mais encriptado na obra universal, não sendo tratado como grande texto. Shakespeare pode sair apenas como homem.
''Um dos princípios seria fazer o caminho de lá para cá e não daqui para lá, o que pressupõe que ele (Shakespeare) era tão real, quanto a gente - talvez mais brilhante -, porém, não é a biblioteca, tem uma cara real'', calcula Diaz.
A Cia. se sentiu no direito de se apropriar da herança de Shakespeare.
''Não como devedores e muito menos possuidores, mas deglutindo, entendendo. Isso faz com que a presença do ator e da contemporaneidade do ator e a presença do público sejam tão presentes quanto a fábula'', propõe o diretor do grupo que se caracteriza pela pesquisa de linguagens teatrais.
Shakespeare por Diaz não é literal, nem a experiência dos atores em cena. Porém, eles se transubstanciam.
''Na montagem Shakespeare é real, humano. Não é poeira ou superioridade intelectual'', avalia o diretor, que ainda assim está contando Hamlet.
O recorte da obra escolhido pela Cia. dos Atores é o do jogo, onde o ator entra evidentemente no texto. Mas sai com facilidade.
Na saída chama o público para se ver no espelho, como quando Hamlet fala para Ofélia que ela finge o que não é ou ao dizer para a mãe, Gertrudes, que olhe também nesse espelho para ver a sua alma podre.
''Existe essa preocupação. Sugerimos coisas estilisticamente. Enfatizamos essa decisão no meio do processo'', afirma Diaz, que espalha quinquilarias no palco. Bolas de pingue-pongue, bacias, e diferentes objetos, que não eclipsam o elenco. Ao contrário, ajudam a construir o edifício que é Shakespeare.
'' O ator é o núcleo desse espelhamento, jogando as coisas para o público. Em termos processuais, o trabalho do ator é a sua biografia, o seu olhar sobre os materiais, os objetos da peça'', acrescenta Diaz, que apenas com um simples tapete constrói o chão da Dinamarca.
Depois de quatro meses de trabalho na montagem, o diretor ressalta que no palco o público verá não o Hamlet que todos conhecem, mas o que a Cia. dos Atores fez.
Ao rachar Hamlet ao meio para Shakespeare sair, Diaz observa no interior do dramaturgo uma formulação psicológica acachapante. Então, opta por ser antropofágico em sua versão do clássico.

FICHA TÉCNICA
Ensaio.Hamlet
Diretor: Enrique Diaz
Diretora assistente: Mariana Lima
Assistente de direção: Dani Fortes
Cenografia: Marcos Chaves e César Augusto
Figurinista: Marcelo Olinto
Iluminação: Maneco Quinderé
Direção de movimento: Andréa Jabor
Preparação corporal: Cristina Moura
Música original e trilha: Lucas Marcier, Rodrigo Marçal e Felipe Rocha
Elenco: Bel Garcia, César Augusto, Felipe Rocha, Fernando Eiras, Malu Galli e Marcelo Olinto

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