Curitiba - A vida do ator José de Abreu daria um filme político. Ligado ao movimento estudantil que ganhou força no final da década de 60, ele chegou a ser preso no Carandiru. Foi solto às vésperas do AI-5. Exilado, rumou para Europa onde trabalhou nas funções mais insólitas. Como a de motorista de uma kombi vestido de palhaço, que levara turistas hyppies para provar especiarias feitas com maconha. De volta ao Brasil, Abreu não esqueceu suas motivações políticas, mas também não deixou de lado sua vocação cultural. Tornou-se um dos mais atuantes atores da televisão e cinema brasileiro. Mas recentemente precisamente com o a revelação do escândalo do valerioduto a veia política saltou novamente em Abreu e ele decidiu se candidatar.
Passou meses à procura de um partido que sustentasse as mesma ideologias que a dele. Mas no derradeiro dia de inscrição, ele decidiu: ''minha tribuna é o palco''. Nascia ali o embrião do espetáculo ''Fala Zé'', uma autobiografia da vida e carreira do ator que se mistura com a história política e cultural do País. O monólogo tem estréia nacional hoje, no penúltimo dia do 15 Festival de Teatro de Curitiba.
Com duas horas de duração, o espetáculo faz um passeio pela história de uma geração que chegou com Lula ao poder. O texto, assinado por Angel Palomero e Walter Daguerre, e trabalhado em conjunto com ator e diretor, o também veterano Luiz Arthur Nunes, tem bases sólidas: a experiência de Abreu com essa geração. Amigo há décadas do ex-deputado José Dirceu, Abreu atribui ao também ex-ministro a função de seu mentor político. Agora, avalia a atitude do político envolvido nos escandâlos do governo Lula: ''É um sentimento de espanto e perplexidade'', revela.
A relação de Abreu com o o ex-ministro também aparece no espetáculo. ''Ainda somos amigos. Ontem mesmo ele me ligou para saber da peça. Espero que ele encare com humor'', diz. O ator deu entrevista coletiva ontem sobre a montagem e explica que o texto que conta a história da sua vida (é certo que a montagem daria um roteiro para o cinema, mas essa intenção ainda não existe) mistura ficção e realidade. ''Não existe como contar essa história com fidelidade exagerada, porque sempre vai ser só a minha versão'', conta.
No palco, Abreu interpreta 23 personagens e troca de figurino oito vezes. O ator ressalta que a intenção da montagem não é, de forma alguma, ser planfletária. ''Eu não posso fazer discurso no palco. Estou ali para divertir e emocionar as pessoas. Agora depois que as cortinas fecham...''. Ele salienta o desejo de conversar com o público sobre questões políticas depois do espetáculo, mas diz que tudo vai depender do comportamento da platéia. O monólogo estréia em Curitiba e depois segue para uma temporada de três meses no Rio Grande do Sul. Em julho, volta ao Paraná, com apresentações agendadas em Londrina e Curitiba, entre outras cidades.
O 15º Festival de Teatro de Curitiba encerra amanhã com 11 apresentações somente na Mostra Oficial entre hoje e amanhã. A programação completa do evento pode ser acessada no www.festivaldeteatro.com.br

Serviço:
- ''Fala Zé'', estréia nacional hoje na grade do 15 FTC: Apresentações hoje e amanhã, às 20h30, no Sesc da Esquina. Ingressos a R$ 12 e R$ 24,00.

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