Com um elenco entrosado, texto bem costurado e iluminação correta, a companhia paranaense Rodrigo D'Oliveira, de Curitiba, causou boa impressão na 4 Mostra Brasileira de Teatro Transcendental, realizada entre os dias 16 e 20 deste mês em Fortaleza (CE). A trupe levou ao palco do histórico Theatro José de Alencar ''O Farol'', com texto fortemente calcado na doutrina kardecista, temática aliás que marcou outras quatro montagens do evento cujo slogan foi ''O Palco da Espiritualidade''. A exceção ficou por conta de ''Maria de Nazaré'', vinda do Rio Grande do Norte, com uma releitura interessante com direito a humor, brincadeira com Herodes e até música do grupo Village People sobre a principal personagem feminina do catolicismo.
A programação alternou-se com espetáculos exatos claro, vistos sobre a ótica da espiritualidade , com exceção de ''O Mistério do Sobrado'', de uma companhia paulista que tem no elenco nomes conhecidos como os atores Paulo Goulart Filho e Raimundo de Souza. O que era para ser uma peça policial, aos moldes dos textos de Agatha Christie, mostrou-se frágil, quase risível por conta do desequílibrio interpretativo, narrativa irregular, clichês visuais e verbais, cenário pobre, só para citar alguns fatores. O consenso foi fechado com ''Entre o Amor e o Ódio'', que abriu a Mostra representando o Ceará. De Santa Catarina foram duas montagens: a infantil ''As Aventuras de Chico Marceneiro'' (bonecos) e ''O Segredo da Mansão Winston'' (comédia) a segunda teve melhor aclamação.
Um questionamento: por que demoninar um mostra como Teatro Transcendental, quando poderia ser perfeitamente ser classificada como espírita? ''A palavra transcendental vai muito mais além. Nosso objetivo é apresentar espetáculos que agreguem valores e que promovam reflexão sobre a vida além da matéria'', analisa Luiz Eduardo Girão, coordenador e idealizador da mostra.
Educado e atencioso, Girão diz que nem só de temática espírita, ou espiritualista como prefere chamar, ergue-se a mostra cearense. Espetáculos que possam transcender, ou seja, que possam promover elevamentos éticos cabem perfeitamente na grade da programação me Gandhi a Madre Tereza de Calcutá, por exemplo. Nesse ano, mais de 50 grupos remeteram seus trabalhos para apreciação da curadoria da mostra, cujo orçamento foi de R$ 500 mil captados pela Lei Rouanet (menos da metade do valor), de parcerias com a iniciativa privada e, principalmente, do próprio bolso do idealizador, um empresário bem-sucedido.
Foi de Girão a idéia de levar a Fortaleza uma mostra com esses contornos. Tudo começou em 2002 quando ele assistiu, em São Paulo, ao espetáculo ''O Cândido'', sobre vida e obra de Chico Xavier. ''Eu era um homem materialista e esse espetáculo ajudou a ver minha família e outras pessoas com outros olhos. Estudo a doutrina kardecista, mas não me considero uma pessoa espírita. Minha religião é o amor'', sentencia. Toda a renda da Mostra, que neste ano foi estendida a quatro municípios cearenses, é revertida a instituições filantrópicas. Neste ano, foram arrecadados 10,3 toneladas de alimentos (levados espontaneamente pelo público) e R$ 112,40 mil nas bilheterias. Estéticas à parte, o lado social da mostra é, no mínimo, admirável.
O jornalista viajou a Fortaleza a convite da organização do evento

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