Abrir os jornais e se deparar com escândalos de corrupção no Brasil não é nenhuma novidade. Há muito tempo! O problema é que essas histórias quase já não causam surpresas ou mais que isso: o assunto é tratado muitas vezes como se fosse uma situação comum. Num mergulho na classe dominante brasileira, os autores Miguel Falabella e Maria Carmen Barbosa fizeram uma análise crítica e bem-humorada dessa herança repassada por gerações desde a época da colonização em ''Capitanias Hereditárias''. Este é o espetáculo em cartaz neste final de semana, no Teatro Marista de Londrina.
O público terá três apresentações (de hoje a domingo) para conferir a performance do elenco, que traz nomes de peso: José Wilker, Ney Latorraca, Natália do Vale, Bia Nunnes, Guilhermina Guinle e Edi Botelho. São atores com temperamentos bastante diversos mas que, de acordo com Natália do Vale, formam uma mistura que deu certo. ''A gente se dá muito bem dentro e fora de cena. E isso conta muito'', contou a atriz em entrevista à Folha2. A direção do espetáculo é do próprio Falabella.
''Capitanias Hereditárias'' estreou em novembro, no Teatro Clara Nunes Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro. Foram 10 meses em cartaz. A turnê começou em seguida, passando por Brasília, Belo Horizonte, Juiz de Fora e Curitiba. Depois de Londrina, a montagem segue para Porto Alegre.
A peça apresenta um grupo de pessoas envolvido em um grande escândalo. Nesse balaio, ninguém é inocente. O banqueiro Edgar (Wilker) e seu irmão Luiz Paulo (personagem em off) deram um golpe financeiro que foi descoberto pelo Ministério Público. Depois de ser detido, Edgar é solto porque conseguiu um habeas corpus de um juiz corrupto.
Em seu apartamento, ele é aguardado pela mulher Maria Olga (Guilhermina), o assessor Dr. Alcyr (Latorraca) e pela cunhada Stella (Natália), que tramam a sua fuga do país. Natália do Vale conta que sua personagem, uma mulher requintada e chique, é alcoólatra e, no decorrer no espetáculo, vai deixando escapar detalhes que revelam o efeito do álcool. ''É aí que toda a postura dela vai para o brejo'', explica a atriz, que acaba de encerrar um trabalho na tevê, como a personagem Sílvia da novela global ''Mulheres Apaixonadas''.
O grupo acaba agregando um padre (Edi Botelho), que ajuda a atrair a atenção da mídia ao deslocar o foco, até então voltado para o escândalo. ''Todos são corruptos, mas o padre, supostamente, teria um caráter mais íntegro'', comenta Natália do Vale. ''Ele mostra, entretanto, uma faceta corruptível''.®MDBO¯®MDNM¯
Quem também acaba envolvida nessa enrascada é Debussy (Bia Nunnes), empregada que trabalha há 18 anos com a família. Todo o dinheiro sujo passa pela conta da moça. O filho dela, que também acaba de sair da prisão, é quem resgata os corruptos rumo a um paraíso fiscal. ''Falabella faz um apanhado de tipos e situações comuns no cenário brasileiro''. Para os autores, os personagens não foram inventados. ''Eles estão por aí, quem sabe na cadeira ao lado''.
Natália do Vale acredita que o processo de banalização do crime em nossa sociedade leva as pessoas a achar que essas situações são normais. ''Passamos por sucessivos escândalos nacionais e tudo entra nesse processo. Pensar e refletir sobre isso pode ser feito através do humor e isso Falabella domina''.
Falabella e Maria Carmen dizem que ''a pequenez de nossas existências é sempre risível, de qualquer maneira; os descaminhos das civilizações invariavelmente criam situações patéticas e o riso nos ajuda a quebrar a perplexidade que nos domina, consequência do mundo quase irreal que estamos vivendo''.

Serviço:
''Capitanias Hereditárias'', espetáculo com texto, direção e trilha sonora de Miguel Falabella. Hoje e amanhã, às 21 horas, e domingo, às 18 horas, no Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 241), em Londrina. Elenco: Ney Latorraca, José Wilker, Natália do Vale, Guilhermina Guinle, Bia Nunnes e Edi Botelho. Cenografia: Rosa May Sampaio. Iluminação: Guilherme Bonfanti. Figurinos: Sonia Soares. Duração: 1h40. Aconselhável para maiores de 12 anos. O espetáculo conta com o apoio da Folha. Ingressos: R$ 40,00 (inteira), R$ 30,00 (com bônus da Folha de Londrina ou da Sercomtel), R$ 20,00 (estudantes e aposentados). Realização: C&S Produções.

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