Transportar a obra de Clarice Lispector (1920-1977) para o teatro é tarefa das mais desafiadoras, capaz tanto de derrubar diretores hesitantes quanto estimular os espectadores a um novo mergulho nos livros da autora. A mais recente turma de formandos da Escola Municipal de Teatro de Londrina topou a missão e inicia temporada do espetáculo ''Saída Discreta pela Porta dos Fundos'', baseado na novela ''A Hora da Estrela'' e em alguns contos da escritora.
A peça estréia hoje às 20 horas no Circo Funcart, permanecendo em cartaz até o dia 31 (só não vai ao palco nos dias 26 e 27). ''A montagem oferece não somente a narração da obra ou descrição dos personagens, mas procura invadir o universo poético e introspectivo de Clarice Lispector'' explica a diretora Ana Carolina Ribeiro, responsável também pelo figurino. A gestação do espetáculo durou sete meses, a partir da pesquisa e leitura de textos incluindo trabalhos acadêmicos e artigos sobre a autora.
Segundo Ana Carolina, os atores em cena interpretam transeuntes em momentos de angústias, reflexões, frustrações e desejos. ''A epifania, elemento que distingue a obra da autora, é o momento em que as personagens estão em busca de algo que vai mudar suas vidas. Recriamos o relato deste fenômeno através de lembranças ou desfrute de pequenos prazeres do cotidiano, como tomar banho de chuva, devorar um alimento ou pelo instante em que uma mulher deixa cair objetos na rua. É quando ela começa a pensar na vida e em tomar uma atitude'' salienta a diretora.
Além de ''A Hora da Estrela'', a montagem empresta fragmentos dos contos ''O Búfalo'' e ''A Imitação da Rosa'', ''Cem anos de Perdão'', ''A Solução'', ''Restos de Carnaval'' e ''A Fuga''. Embora central na adaptação, ''A Hora da Estrela'' surge em abordagem não-linear em cena. ''Pegamos trechos, como no dia em que Macabéa (a personagem principal) se delicia com o fato de poder ficar sozinha no quarto de pensão que divide com outras mulheres'' conta.
Ana Carolina sublinha a economia de diálogos e a primazia da expressão corporal no espetáculo. Define a linguagem cênica utilizada como ''abstrata''. Ela conta que recorreu ''de forma sutil'' ao erotismo feminino e a formas circulares para elaborar o cenário, o figurino e o próprio cartaz da peça. A inspiração veio do pintor austríaco Gustave Klint (1862-1918). ''Procurei também ressaltar a cor marrom, que está sempre presente nas narrativas de Clarice: ela sempre fala da mulher que traja um casaco ou um vestido marrom'' diz.
O texto foi uma criação coletiva da trupe formada pelos atores Aline Sales, Renato Cipriano, Tábata Soares e Zulma Santos com a colaboração da diretora e do assistente de direção Silvio Ribeiro. Os quatro atores são formandos da décima turma regular da Escola.

Serviço:
- Estréia do espetáculo ''Saída Discreta pela Porta dos Fundos'', com alunos formandos da Escola Municipal de Teatro de Londrina. Elenco: Aline Sales, Renato Cipriano, Tábata Soares e Zulma dos Santos. Direção: Ana Carolina Ribeiro. Hoje, às 20 horas, no Circo Funcart (Rua Souza Naves, 2.380). Ingressos: R$ R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia entrada). Temporada: hoje, dias 21, 22, 23, 24 e 25 de agosto e dias 28, 29, 30 e 31 de agosto, sempre às 20 horas. Mais informações: (43) 3323-0945.

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