TEATRO - Delírio poético
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sábado, 13 de dezembro de 2003
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
De mãos dadas e em círculo, os atores do grupo Boca de Baco ouviam atentamente as últimas recomendações antes de entrar em cena: ''A gente tem que provar que nosso trabalho vale a pena. Se não houver prazer e emoção de nada vão valer nossos esforços. Todo ator tem que ter prazer e responsabilidade''. Palavras do diretor Luiz Valcazaras remetidas ao elenco do espetáculo ''Balada de um Poema'', antes do ensaio geral e aberto à imprensa, ocorrido na última quarta-feira à noite. Minutos depois, todos se posicionam e começa a encenação. Sintonia perfeita, apesar de breves intervenções do diretor.
Os esforços do grupo poderão ser conferidos hoje, em Londrina, na pré-estréia do projeto teatral patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura - Promic - e que consumiu pelo menos dez meses de trabalho. As sessões acontecem às 21 horas e à meia-noite, na Usina Cultural. A entrada é gratuita, como forma de contrapartida social do Promic. Os convites são limitados e devem ser retirados hoje, das 14 às 18 horas no local. A temporada oficial começa em 8 de janeiro, o espetáculo é para maiores de 16 anos.
''Balada de um Poema'' é datado. Passa-se na década de 70, num hospital ®MDBO¯®MDNM¯ psiquiátrico. Lá, as atenções convergem para sete pacientes cuja breve trajetória de vida e os motivos pelos quais se encontram confinados são ®MDBO¯®MDNM¯narrados por Glória, uma pesquisadora interessada pelos mistérios da mente humana. É ela quem dá visibilidade àqueles popularmente taxados de loucos.
São eles: Assunção (que teve um surto após perder sua amada Juliana, morta durante uma passeata contra a ditadura militar); Juca (interno há dois anos com diagnóstico de psicopatia); Talita (representante da geração ''paz e amor'' que passou por várias terapias alternativas e, numa delas, expandiu demais a mente), Miguel (internado por uso excessivo de drogas que, ao seu ver, eram experiências ''místicas''); Belinha (paciente esquizofrênica que na infância foi sucessivamente estuprada pelo pai alcóolatra que a usava também como ''pagamento'' de suas dívidas em jogos); e Josefina (figura misteriosa a que caberá ao público decifrá-la)
Convive com eles um certo Assis, autodenominado ''arauto do devaneio'', poeta que foi parar no hospital psiquiátrico por perseguição política os militares entendiam seus delírios poéticos como mensagem cifrada. Vem dele um sopro de renovação ao sugerir transformar aquela prisão de mentes em um circo. ''A realidade mastiga a gente com seus dentes de pedra'', diz o personagem em determinado momento.
Daí que ''Balada de um Poema'' tem como cenário um picadeiro de circo, com poltronas vermelhas e serragem espalhada pelo chão. Dinâmica e consistente, a montagem apresenta®MDBO¯ ®MDNM¯alguns recursos cênicos simples, mas que nas mãos do diretor Luiz Valcazaras ganham outra dimensão efeitos de luz, por exemplo.
Coincidência ou não, mais uma vez Valcazaras se dedica a uma montagem que tem como tema a loucura foi assim no belíssimo ''Anjo Duro'', com Berta Zemel, em que abordou o trabalho desenvolvido pela psiquiatra Nise da Silveira na humanização do tratamento de doentes mentais. ''A loucura me fascina ao mesmo tempo em que me assusta. Esse jorro de imagens que me vêm à cabeça eu jogo no palco'', analisa.
Mesmo sendo um espetáculo que percorre alguns dos caminhos difusos da mente humana, Valcazaras não o considera denso, pesado. ''É despojado, provocativo. Tem um lado lúdico, mas fala de um assunto sério'', analisa. De fato, ''Balada de um Poema'' é impactante. Dá margens, obviamente à reflexão e até mesmo a centelhas de humor isso vai depender da leitura ou suscetibilidade emocional do espectador.
Foi o poema ''Salas'', de Marcos Losnak, co-autor do texto juntamente com Valcazaras, que suscitou a montagem e, através de um processo coletivo, sinalizou caminhos dramatúrgicos. Tudo dentro de um projeto denominado Núcleo de Investigação Teatral (NIT), criado por Luiz Valcazaras há oito anos em São Paulo, e implantado em Londrina pelo grupo Boca de Baco, em 2002
Ficção por excelência, a peça foi aditivada com fatos reais como a cena do casamento no hospital psiquiátrico e o enterro de uma pobre coitada que teve que ser ''diminuída'' para que seu corpo coubesse no caixão malfeito. ''Balada de um Poema'' tem aproximadamente 60 minutos de duração e pode abrigar até 60 pessoas por apresentação algumas, inclusive, poderão ser convidadas para sentar-se nas poltronas colocadas no cenário. Na antesala da Usina Cultura, o público vai se deparar com materiais e objetos utilizados em hospital.
''Balada de um Poema'', saibam, é sobretudo tocante.
Serviço:
- ''Balada de um Poema'', espetáculo com o grupo Boca de Baco. Pré-estréia hoje em duas sessões: às 21 horas e meia-noite, na Usina Cultural (Rua Duque de Caxias, 4159), em Londrina.Texto: Marcos Losnak e Luiz Valcazaras. Concepção geral e direção: Luiz Valcazaras. Assistente de direção: Maria Fernanda Coelho. Criação do material gráfico: Alexandre Makiolke e Eduardo Gouveia. Elenco: Nivaldo Lino (Assunção), Jackeline Seglin (Glória), Ricardo Gimenes (Assis), Carla Dyacov (Belinha), Viqui Gonzáles (Josefina), Francisco Spisla (Juca), Itacir José Rockenbach (Miguel) e Elaine Brito (Talita). Entrada franca. Os convite devem ser retirados no local somente das 14 às 18 horas, ou reservados pelo telefone 9993.9898, até às 18 horas de hoje. Patrocínio: Promic.


