TEATRO - Conflitos tocados com delicadeza
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sexta-feira, 01 de julho de 2016
Célia Musilli<br>Reportagem Local 
As tragédias gregas sempre encontram novos espaços, novas formas de expressão porque se ligam a temas que nos falam de perto, fazem parte do prólogo, dos conflitos e do êxodo da humanidade. Às vezes esse êxodo está dentro de nós mesmos. Foi assim há 400 anos antes de Cristo quando as tragédias foram criadas, é assim na contemporaneidade quando alguém toma Édipo e Electra pela mão e resolve recontar suas histórias a partir de experiências muito próprias, trespassadas por um clarão do passado, presente e futuro.
O espetáculo "Ovo", que volta à arena depois de uma temporada de sucesso em 2015, será apresentado neste fim de semana no Sesc Cadeião Cultural dentro do projeto Londrina em Cena, que tem por objetivo valorizar a produção cênica da cidade. Depois, terá mais duas sessões nos dias 23 e 24, no Circo Funcart.
Concebido para ser apresentado em arena, daquela forma que coloca o público mais próximo dos atores, num clima de interação como se as pessoas não estivessem apenas assistindo ao teatro, mas à própria vida, "Ovo" é um espetáculo da companhia Agon que estreou sob a égide da qualidade e do cuidado com cada detalhe que envolve a montagem: do material gráfico à meticulosa forma de fazer teatro. Escrito e dirigido por Renato Forin Jr, que também contracena com Danieli Pereira, "Ovo" põe em cena a intimidade de dois irmãos Édipo e Electra que passaram a juventude no campo e se reencontram na cidade num momento decisivo. Os personagens tocam no terreno delicado dos afetos, das perdas, no momento em que Electra vai à cidade para noticiar a morte da mãe. Assim, a trama de um passado remoto ressoa dentro de cada um de nós, naquele espaço de êxodo que é o esvaziamento circunstancial quando nos despedimos de quem amamos e perdemos também o chão. A companhia optou pela fragmentação do texto, uma certa descontinuidade que intercala narrativas para criar um ambiente poético num cenário inusitado: um galinheiro, onde ovo e galinha são representações da vida. O ovo é um elemento de conexão profunda com a existência e, ao mesmo tempo, um ícone do isolamento para onde migramos quando estamos sozinhos.
Os diálogos são de uma beleza ímpar, dando ao público a ideia de que a sua concepção serve para perfurar a superfície e chegar ao núcleo dos sentimentos.
Édipo diz: "De repente, eu lembrei de perguntar: onde está agora minha mãe? Vontade de pegar o primeiro ônibus, de ligar para um lugar onde não há telefones, de correr, correr muito."
Electra diz: "O tempo bailava a sua cíclica dança em nossos dias. Pegava-nos crianças, pelas mãos, rodopiava, embaralhava-nos nas dobras de suas saias invisíveis. O tempo brincava de esconde-esconde na nossa coreografia sem jeito: trazia nuvens negras e carregadas para tornar solene a dor de Édipo e para escancarar a minha velha ferida."
É flagrante o rito de cumplicidade dentro das falas que transitam entre a literatura e o teatro. Melhor ainda senti-las através das comportas que se abrem em nossas mentes quando estamos diante de um palco, entre personagens que resgatam pedaços de nossa própria história.
"Ovo" talvez possa ser visto como um espetáculo de resgate, feito daquelas partes de nós que compõem toda a humanidade, através dos conflitos, perdas e das costuras possíveis. Sempre há retalhos de nós por onde passamos. Como lembra Renato Forin, quando escreve no programa do espetáculo, resgatando as palavras de Eugenio Barba, outro mestre do teatro: "Um espetáculo precisa ser importante a ponto de mobilizar tanto um menino que, passando pela rua, resolva entrar no teatro pela primeira vez, quanto um velho, na poltrona ao lado, que terá visto ali sua última peça."
Em síntese, teatro é também mobilização de sentimentos, resgate de filigranas de emoções escondidas em nossas mentes e corpos. Não por acaso, o Édipo dos gregos empreende uma viagem para dentro de si próprio. Na ideia dos gregos não era mais necessário que os deuses controlassem os homens se eles se conhecessem profundamente. Isso se chama autoconhecimento, outra força-motriz do teatro.
"Ovo" trata dessa viagem interior de forma sensível, tocando em memórias remotas, memórias de pais , mães e filhos. Memórias arcaicas e tão atuais quanto aquilo que acaba de nascer. "Ovo" pode ser um momento de encontro com nossas próprias vidas, parte daquele percurso que guardamos de forma íntima e que só pode ser tocado de maneira muito delicada para que não se quebre.
O espetáculo tem orientação cênica do dramaturgo, diretor e ator Marcio Abreu, criação de luz de Maria Emília Cunha, desenho sonoro de José Carlos Pires Junior, com flauta, viola, violino e viola de gamba dando o tom da poética necessária à arte e à vida.


