Sobraria muito pouco de nós se tivéssemos que lutar contra o amor e o ódio juntos. Muitas vezes, os dois sentimentos são tão fortes que se fundem num só, através de argumentos que tentam sustentar doutrinas e convicções como a xenofobia e o racismo.
Na peça ''A Luta do Negro e dos Cães'' (Kampf des negers und der hunde), que a lendária companhia alemã Volksbuhne, com mais de 80 anos de existência, apresenta no 38º Festival Internacional de Londrina (FILO) hoje e amanhã, às 20h30, no Teatro Ouro Verde, o que sobra dessa luta é o medo de enfrentarmos novamente sentimentos concretados em muros, como o de Berlim.
Mas é da Praça Rosa Luxemburgo, na antiga Berlim Oriental que vem, pela primeira vez ao Brasil, o discurso pelos marginalizados na encenação hight-tech da companhia criada em 1914, a partir de uma associação de operários.
Depois da queda do muro, Frank Castorf assumiu a direção do teatro, se tornando um dos mais importantes diretores europeus.
Só para se ter uma idéia, os atores do elenco são funcionários do teatro com contratos assinados por períodos de dois a três anos. A companhia pode circular com vários espetáculos ao mesmo tempo.
''A maneira como Frank prepara os atores faz com que atuem com naturalidade, podendo representar em espetáculos com cinco e até seis horas de duração'', explica o diretor substituto, Patrick Wengenroth, que acompanha o elenco que se apresenta no FILO.
A montagem com duas horas de duração do texto de Bernard-Marie Koltès é assinada pela diretor búlgaro Dimiter Gotscheff, 62 anos. Por motivos de saúde, ele não pode acompanhar o grupo ao festival, mas se mostrou curioso para ver a peça, que acomoda personagens esquecidos e anônimos, tão próximos da realidade do Terceiro Mundo, desembarcando no Brasil.
O texto é um dos que usam de uma linguagem forte e poética para socar o homem com cinismo e comédia, através da história de um nativo africano, reivindicando o corpo do irmão em um canteiro de obras francês.
Antígona moderna, o personagem pôs luz em Koltès, em 1983, quando a peça foi encenada por Patrice Chéreau, se tornando um dos maiores autores franceses do século XX.
''A luta do negro...'' e seu diretor búlgaro - que não deixa de ser um estrangeiro em terra alemã que, por isso, se sente uma espécie de negro no meio de brancos - mostra as diferenças de uma maneira romântica, subjetiva e nostálgica.
''Isso não deixa de ser um clichê. Existem grupos de negros em Berlim que não gostam da peça, achando que as cenas reproduzem racismo num tipo de projeção do homem branco sobre o negro, especialmente na cena que um ator branco, que faz o papel do negro, entra vestido de macaco'', explica Wengenroth.
É mais uma metáfora no espetáculo que faz lembrar - não só os negros, mas os homossexuais, os latinos e qualquer outra minoria - na luta contra o amor e o ódio das convicções, desejando ter a sua própria alma e não uma projeção dela.

FICHA TÉCNICA
A Luta do negro e Dos Cães
- Direção: Dimiter Gotscheff
- Figurino: Katrin Brack
- Música: Bert Wrede
- Dramaturgia: Andréa Koschwitz
- Iluminação: Hennig Streck
- Elenco: Wolfram Koch, Samuel Finzi, Almut Zilcher e Milan Peschel

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