O compositor Cartola e dona Zica, personagens queridos da história do Rio e do samba, estão de volta. A vida deles é tema do musical ''Obrigado, Cartola!'', em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, com Flávio Bauraqui (o Jair Rodrigues do musical ''Elis'' e o Tabu do filme ''Madame Satã'') e Mariah da Penha (a Viriata, escrava moralista de ''A Casa das Sete Mulheres'') como o casal que tanto fez pela cultura carioca. A peça tem texto de Sandra Louzada (''Somos Irmãs''), direção-geral de Vicente Maiolino (''O Samba É Minha Nobreza'') e direção musical de Roberto Gnattali, que volta ao Rio após uma década em Curitiba. Além das músicas de Cartola, há um samba-enredo de Paulinho da Viola e Hermínio Belo de Carvalho, também intitulado ''Obrigado, Cartola!'', feito para o espetáculo.
Sandra Louzada passou um fim de ano de pura ansiedade, evitando a comparação com ''Somos Irmãs'', que contava a vida das cantoras Linda e Dircinha Batista e foi o maior sucesso teatral de 1997 (no Rio) e 1998 (em São Paulo). ''Temos tudo para dar certo, um elenco perfeito, personagens maravilhosos, uma história fantástica, músicas lindas e uma equipe totalmente entrosada'', comenta ela. ''Mas, e os deuses do teatro? Estão com a gente, como das outras vezes? Aparentemente, a vida de Cartola foi mais amena que de Linda e Dircinha, mas ele viveu situações dramáticas, que superou tudo com talento, persistência e doçura. É um exemplo.''
As fotos de Flávio e Mariah indicam que os deuses estão atentos. Ele ganhou o personagem há mais de um ano, quando as atrizes Júlia Rabello, Laura Castro e Marta Nóbrega chamaram Sandra para escrever sua primeira produção. Para ficarem fisicamente parecidos com o casal, os dois atores fizeram uma composição minuciosa, em que até uma fonoaudióloga ensinou Flávio a falar e a manter a expressão facial do compositor. ''Mais que o gestual, procurei a essência de Cartola, seu humor ácido e contraditório e sua elegância, que lembra um Nelson Mandela'', explica o ator, com um longo currículo de musicais em dez anos de carreira no Rio. ''Houve uma época em que eu estava sempre no palco do CCBB. Mudava a peça, mas eu estava lá no elenco.''
O espetáculo mudou com os ensaios. ''As músicas permaneceram, mas o texto foi reescrito com contribuições dos atores'', conta Sandra, que criou a ação em dois planos. Na ficção, que recebe um tratamento realista, Bento, um compositor de morro, precisa fazer um samba-enredo sobre a vida de Cartola, da infância ao sucesso, que ele conheceu com mais de 60 anos, passando pela fundação da Mangueira, seu contato com a intelectualidade e sua cumplicidade com dona Zica, sua terceira mulher e esteio de sua carreira.
''Os fatos reais são tratados como alegoria, como se fossem um desfile de escola de samba, que começa singelo como os primeiros, dos anos 30 e 40, e termina com a grandiosidade do sambódromo'', adianta o diretor, Vicente Maiolino. ''A ficção tem só cinco personagens que se parecem com gente que encontramos na rua, enquanto a realidade é glamourosa, tem outros 15 atores, além dos cinco músicos, que tocam ao vivo. Os arranjos buscam as diversas épocas em que Cartola atuou e Roberto Gnattali (sobrinho do lendário maestro Radamés Gnattali e seu discípulo) conhece a fundo essa sonoridade.''
Difícil foi selecionar o repertório, pois só os sucessos de Cartola dariam mais de duas horas de espetáculo e outras músicas que esclarecem quem foi ele precisavam entrar. Ficaram 22, entre clássicos como ''Acontece'', ''As Rosas não Falam'', ''O Mundo É um Moinho'' e ''Alvorada'', e outras que pouca gente conhece, como o samba-enredo ''Ciência e Arte'' (com Carlos Cachaça, derrotado na Mangueira nos anos 40), uma maravilha que, mesmo gravada por Gilberto Gil, nunca estourou. ''O samba do Paulinho e do Hermínio alinhava a história'', revela Sandra. ''Há mais de 30 anos , eles foram parceiros em ''Sei lá, Mangueira'' e só agora voltaram a compor juntos.''
Se há dúvida quanto aos deuses do teatro, os donos do carnaval carioca apostaram na peça de imediato. Os presidentes da Mangueira, Álvaro Caetano; Beija-flor de Nilópolis, Anis Abraão David, e Grande Rio, Jaider Soares, contribuíram para cobrir a produção. Dos R$ 900 mil orçados, só se obteve R$ 520 mil, pela Lei Rouanet, num pool formado pelo Banco do Brasil, Transpetro, Renasce (empresa de shoppings), Brasil Telecom e Correios. ''As escolas entraram com dinheiro e o serviço de seus barracões'', diz o carnavalesco Milton Cunha (da São Clemente), que assina os figurinos, com mais de 120 roupas. ''Trouxemos uma escola de samba para o teatro, mas é preciso caprichar porque, enquanto no sambódromo o público vê as fantasias durante alguns minutos, de longe, aqui ela fica mais tempo em cena, vista de perto.''
Quase 15 anos após sua morte, Cartola continua um modelo de artista e suas músicas estão entre as mais executadas. Ele nasceu no Catete, em 1908, quando o bairro abrigava a aristocracia carioca, mas antes dos 10 anos foi para o Morro de Mangueira, uma das primeiras favelas do Rio. Lá fundou a primeira escola de samba do País, a Estação Primeira, conviveu com sambistas e inventou o gênero com eles. Dona Zica, amiga de infância, com quem ele se casou com mais de 40 anos, é um divisor de águas em sua vida. Juntos, eles criaram o Zicartola, restaurante lendário dos anos 60, onde os intelectuais conheceram o samba dos compositores populares, num movimento que acabou fazendo dele uma estrela, já no fim da vida.
''Ela é responsável por essa volta por cima do Cartola e também pela tranquilidade de seus últimos anos, quando ele compôs o melhor de sua obra'', explica Sandra. ''O apoio da família dele foi fundamental e ela, mesmo doente, ajudou a escrever o espetáculo e planejava até o vestido que usaria na estréia. A peça é sobre o compositor, mas é também sobre a convivência dele e de dona Zica e o exemplo que eles nos deixaram.''

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