TEATRO - As artes de Jardelina
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de março de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
''Jarda'' era como ela era mais conhecida em Bela Vista do Paraíso (40 km ao norte de Londrina). Dona de uma manifestação artística singular, costumava andar pelas ruas vestida com roupas que ela mesma criava. Gostava das cores fortes, de saias de samambaias, de maquiagem forte e de tudo que achava que pudesse expressar a sua emoção. Era comum fazer discurso em plena rua. Com voz rouca e com um forte sotaque sergipano, impressionava pelo absoluto despojamento que demonstrava ao falar da sua vida, das suas revoltas, principalmente com o governo, e até mesmo das suas dores, como as lembranças sofridas do período em que ficou internada em um hospital da região metropolitana em Curitiba.
Falecida em agosto do ano passado, Jardelina da Silva foi diagnosticada como esquizofrênica e nos últimos anos de vida a família optou por interromper a sua medicação e mantê-la em casa, onde tinha liberdade para dar vazão à sua lógica criativa. Para registrar as suas criações, frequentava o Foto Pan, onde fazia questão de deixar em fotografias as suas performances. Era uma artista, embora talvez não tivesse a consciência convencional disso. Dizia que ouvia vozes, guias, que ditavam o que ela tinha que fazer. Tudo isso era o seu trabalho, afirmava.
Para contar um pouco mais da história da Jardelina da Silva, estréia amanhã, em Londrina, o espetáculo ''e o mundo não vai acabar mais'' frase de sua autoria , na Usina Cultural, de quinta à domingo, às 21 horas. A pré-estréia é hoje, às 21 horas, para convidados. A peça é resultado de um projeto desenvolvido pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), que envolveu mais de um ano de trabalho de pesquisa do grupo.
Baseado em depoimentos gravados pelo assessor de pesquisa da peça, o artista plástico Rubens Pillegi Sá que projetou a sua história nacionalmente ao escrever reportagem sobre ela na revista Marie Claire e em material de Antonio Marcos Bejora (do Foto Pan), a peça não pretende ser um trabalho biográfico. ''Ficou claro para nós o quanto seria impossível representá-la. Seria arrogância fazer uma dramaturgia ou biografia. Ela é extremamente forte e tem uma lógica muito própria. Os seus figurinos e discursos são elementos suficientes para falar dela'', explicou a diretora e atriz Maria Fernanda Coelho.
Divididas em cinco cabines, ''cabanas'' improvisadas com mosquiteiros presos ao teto, as cinco atrizes demonstram algumas das milhares das facetas de Jardelina da Silva. A peça, que tem duração de 40 minutos, privilegia os próprios discursos da artista expressos em gravações com a sua própria voz. A trilha, de Luís Renato, cria paisagens sonoras que favorecem à construção do ambiente onde ela costumava discursar. O trabalho ainda inclui cenas individuais onde as atrizes falam textos sobre a vida e a morte.
''Ela era uma figura muito generosa, tudo ela dividia. Para mim era a rainha da generosidade. Na primeira vez que a vi, houve uma sensação de estranhamento, de espanto misturada com o fascínio de ver alguém tão corajosa. E com a peça não pretendemos focar o seu diagnóstico clínico, mas, sim, a sua manifestação artística'', destacou Maria Fernanda.
Serviço
- ''e o mundo não vai acabar mais'', peça de teatro sobre Jardelina da Silva. Pré-estréia hoje, às 21 horas, para convidados. Em cartaz de 11 (amanhã) a 27 de março, na Usina Cultural (Av. Duque de Caxias, 4159 esquina com São Salvador), sempre de quinta à domingo. Ingressos: R$ 5,00 e R$ 2,50 (meia-entrada para estudantes e idosos), à venda no local.


