Maquiavel (1469-1527) sabia das coisas. Mas quando escreveu ''A Mandrágora'', talvez não imaginasse o alcance de seu texto, a atualidade corrosiva que atingiria muito além da Itália de sua época. A obra, um clássico da dramaturgia universal, satiriza os vícios e fraquezas humanas focalizando a corrupção entre os poderosos na Florença do século XVI.
No Brasil, a peça foi rebatizada para ''A Maracutaia'', numa adaptação que Miguel Falabella ambientou em Brasília para flagar os escândalos políticos do Congresso e arredores. A nova versão do espetáculo estreou há 1 mês na própria Capital Federal e chega neste final de semana ao Norte do Paraná: hoje (21 horas) e amanhã (19 horas) será apresentado no Teatro Marista, em Londrina, e nos próximos sábado e domingo estará no palco do Teatro Marista de Maringá.
''O texto traz uma crítica à falta de limites éticos dos homens, mostrando os absurdos que eles são capazes de fazer para conquistar poder, sexo e dinheiro'' resume o ator Giuseppe Oristânio, que integra o elenco ao lado de Juliana Baroni, Luiz Salém, Rafael Paiva, Tadeu Melo e Thelma Reston. Foi Giuseppe quem, há pouco mais de dez anos, sugeriu a montagem da peça de Maquiavel.
Falabella gostou da idéia, mas motivado pelos desmandos políticos brasileiros introduziu componentes locais à trama. Na ocasião, o País mergulhava no Collorgate, mal sonhando com o que ocorreria uma década depois com o chegada do PT ao Palácio do Planalto. A peça foi um grande sucesso, assistida por cerca de 400 mil espectadores. ''Ficamos dois anos em cartaz. Quando paramos, pensamos em nossa santa ingenuidade que aquela coisa jamais se repetiria. Hoje nos deparamos com o mesmo problema e num grau maior'' diz.
A idéia de remontar ''A Maracutaia'' surgiu em setembro desse ano quando a maioria do elenco concluía as gravações da novela ''A Lua Me Disse'' (Globo) e o mar da lama voltava a encharcar a República. No palco, voltaram a desfilar os figurões e figurinhas, todos ostentando falta de escrúpulos e flacidez de caráter. O advogado Nícias, no original, passa a ser um deputado da bancada nordestina, às voltas com o problema da esterilidade da sua mulher Lucrécia, filha de um oligarca.
Sóstrata, a sogra parasita, assume os ares de grande dama cujo sonho é abandonar o agreste e viver em Boca Ratón. Ligúrio é um articulador político de óbvias conexões com vilões da atual crise política brasileira. E Calímaco, que alguns consideravam um jovem honesto, volta de Paris para tentar a todo o custo salvar o dinheiro da família arruinada.
Segundo Giuseppe, a nova versão não traz mudanças substanciais em relação à montagem dos anos 90. Ganhou, sim, referências a acontecimentos e personagens das atuais CPIs. ''Mas não se trata de uma peça panfletária'' alerta o ator. ''Ela mantém a profundidade do original de Maquiavel, mas não tem o pretenso poder de mudar nada. Afinal de contas, não somos a polícia nem a justiça. Para nós, atores, é uma forma de expurgar a raiva diante de tanta loucura. 'A Maracutaia' é fundamentalmente uma comédia, uma peça para rir e se divertir, quase um desenho animado com seus figurinos exagerados. E se o público sair do teatro com uma reflexão, já teremos cumprido nossa missão''.
Além de Brasília, a peça já foi mostrada em Cuiabá e Campo Grande. O cronograma prevê apresentações até a véspera de Natal. Depois, eles descansam e retornam para uma primeira temporada no Rio de Janeiro com estréia marcada para o dia 6 de janeiro.

Serviço:
- Espetáculo ''A Maracutaia''. Hoje (21 horas) e amanhã (19 horas). Local: Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 241 - Tel. 43/3374-3600), em Londrina. Ingressos: R$ 40,00 (inteira), R$ 30,00 (bônus da Folha de Londrina e assinantes Sercomtel Celular) e R$ 20,00 (estudantes e aposentados). Pontos de venda: Royal Plaza Shopping (Rua Mato Grosso, 310, Tel.: 43/3345-1414).
- Dias 3 e 4 de dezembro. Local: Teatro Marista de Maringá. Ingressos: R$ 50,00 (inteira), R$ 35,00 (para médicos cooperados da Unimed) e R$ 25,00 (estudantes e aposentados). Ponto de venda: Mega Store Bom Livro (Tel. 44/3227-1900).

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