TEATRO - A inteligência a serviço da estupidez
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de junho de 2005
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Rafael Spregelburd usa a inteligência a serviço da estupidez num choque de histórias que não saem do lugar atoladas em personagens bizarros.
Esse impacto provocado pelo dramaturgo, considerado um dos mais importantes da nova geração argentina, desloca o road movie para o teatro na quarta parte de uma heptalogia sobre os sete pecados capitais.
Spregelburd assina também a direção de La Estupidez, que o grupo El Patrón Vazquez estréia no 38º Festival Internacional de Londrina (FILO) hoje, com reapresentação amanhã, às 20 horas, no Circo Funcart (Rua Souza Naves,2830).
Ele não deixa o público a pé na comédia melodramática, com duração de quase 4 horas, reservando um banco para a mais pura ficção numa viagem aos 24 personagens interpretados por apenas cinco atores.
O argentino quer pegar na mão, a fórmula já encontrada pelo cinema, para grudar o espectador na poltrona. Para conseguir matar a charada, o teatro, na sua opinião, precisa aprender a tornar complexa a narrativa ao ponto de não se tornar enfadonha. Assim a duração dos espetáculos não será um problema.
Batendo o martelo da avareza em La Estupidez, Spregelburd se inspirou na heptalogia do pintor Hieronymus Bosch 1450-1516) sobre os sete pecados capitais para escrever também A Inapetência, A Extravagância, A Modéstia, Pânico e ainda A Paranóia.
O sétimo pecado ainda não foi cometido pela sua dramaturgia mas, apesar de se inspirar na pecaminosa realidade, o diretor adota o livre arbítrio - dependendo só da sua vontade a relação com o real.
La Estupidez ganhou o prêmio Tirso de Molina, em 2003, na Espanha.
Encomendado em 2000 pelo Deutsches Schauspielhaus de Hamburgo, Alemanha, estreou na Schaubühne de Berlim, sendo uma oportunidade do público do festival conhecer a obra do dramaturgo, que ao lado de Daniel Veronose - atração do FILO 2004 - é um dos autores e diretores argentinos mais importantes da atualidade.
Crédito assinado embaixo pelo Wiener Festwochen (Festival de Viena), que co-produziu o espetáculo sem que fosse apresentado no evento.
Numa observação de rodapé sobre o seu lugar no meio teatral argentino, podemos acrescentar que Spregelburd examina com fleuma o teatro da América Latina e europeu.
Aos 35 anos, o dramaturgo acredita que o endereço humano que o teatro precisa desenvolver é através da ficção, sufocando o discurso histórico que ainda amarra os pés da dramaturgia aos tempos da repressão.
É um pouco terrível o que vou falar. Não é uma necessidade do teatro na América Latina ser uma crítica social, mas uma projeção que a Europa faz. Os europeus quando falam do teatro latino-americano obrigam a ser sempre representado como descritivo de algo muito triste, de um países pobres, falando sobre pobreza. Já o teatro europeu foi interrompido na Segunda Guerra Mundial. O espanhol pelo franquismo. Na Alemanha tinha o teatro clássico, que se tornou utilitário até chegar em Brecht. Ele é um poeta formidável. Em que pese o teatro ter uma função política, ele fracassou, não fez nenhuma revolução, avalia Spregelburd, se contentando com o atual teatro alemão da sua geração, que está criando personagens confeitados com Alfred Hitchcock.
Os personagens de Spregelburd pensam que são inteligentes, mas na sua ficção, eles são estupidos. Em La Estupidez, esses personagens são norte-americanos pela conveniência de se parecerem mais com as séries de TV classe B do que por uma manifestação política. Aliás, o público brasileiro perde um pouco da picardia do texto em um castelhano neutro das novelas mexicanas, idioma que não é falado em nenhum país de língua espanhola, sendo mais um dispositivo bizarro com que o diretor tacha os personagens. Detalhe importante, a apresetação no FILO terá legenda e 15 minutos de intervalo.
Três policiais em serviço, um grupo de amigos em férias, dois contrabandistas de obras de arte, um cientista que tem uma relação problemática com o filho e muitos outros tipos estranhos estão atrás de dinheiro na peça.
Spregelburd já se apresentou no FILO em 2002, com La Escala Humana.
De volta ao festival, saca de mecanismos inteligentes extraídos de uma cultura que considera bizarra. É a inteligência a serviço da estupidez.
FICHA TÉCNICA
Texto e direção: Rafael Spregelburd
Elenco: Héctor Díaz,Andrea Garrote, Mónica Raiola, Rafael Spregelburd e Alberto Suárez
Músicaz original: Nicolás Varchausky
Cenografia: Oscar Carballo
Figurino: Julieta Álvares
Iluminação: Matias Sendón
Co-produção: Wiener Festwochen (Festival de Viena)
Duração: 3h20 (com intervalo de 15 minutos)
Faixa etária: acima de 16 anos7


