TEATRO - A coisificação do homem
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de maio de 2004
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Um aventureiro que tem a liberdade de se locomover para todos os lugares, ao mesmo tempo; vive intensas paixões, conquistas e derrotas... até que lhe propõem a companhia de um cachorro. É essa aventura com o companheiro que o espetáculo ''Cãocoisa e a Coisa Homem'' vai desvendar no palco do Festival Internacional de Londrina, nas apresentações que a trupe curitibana do Ateliê de Criação Teatral (ACT) realiza hoje e amanhã, às 20 horas, no Circo Funcart.
O espetáculo é resultado de um trabalho de 1,5 ano do Núcleo de Pesquisa Teatral do ACT, do qual faz parte o ator Luis Melo. Ele explica que a proposta inicial era discutir a relação do homem com tudo que o rodeia. ''A gente queria trabalhar um tema que pudesse ser pesquisado e exercitado pelos atores na evolução do processo de criação'', comenta. ''Uma série de sincronicidades, no teatro, na literatura, em crônicas de jornais, em filmes, nos levou à pesquisa da relação entre o homem e o cachorro. A partir daí trabalhamos o tema em várias artes (literatura, cinema, fotografia, artes plásticas...), usando todas as referências possíveis sobre o tema, sem preconceito, sem uma linha definida'', define.
Após esse período, o ACT contou com a experiência do diretor Aderbal Freire-Filho, do Rio de Janeiro, que ajudou a alinhavar o trabalho. Durante 3,5 meses, ele se ocupou também de construir a dramaturgia de ''Cãocoisa e a Coisa Homem'', que estreou como primeiro espetáculo do ACT em agosto de 2001, em Curitiba. No ano seguinte foi premiado no Troféu Gralha Azul nas categorias melhor espetáculo, ator (Luis Melo) e ator coadjuvante (Andrei Moscheto).
Além do diretor, o trabalho reuniu outros profissionais para uma troca de experiências, como a preparadora corporal Suely Machado, do Grupo Corpo (MG), e a preparadora vocal Babaya, que trabalha com o Grupo Galpão (MG). Ainda participaram do processo o iluminador Beto Bruel, a produtora e atriz Nena Inoue e o cenógrafo e figurinista Fernando Marés.
Luis Melo conta que o espetáculo tem uma história trabalhada no tempo e no espaço. Começa mostrando um velho no final da vida, condenado, como o seu cão. ''A montagem começa pelo final, a partir do sacrifício do homem. Depois a história vai se alinhavando, dentro de uma grande aventura do homem e sua relação com o cão, desde os primórdios. Quem humanizou quem?'', interroga.
De acordo com o diretor Freire-Filho, ''Cãocoisa e a Coisa Homem'' é uma evolução do olhar sobre o homem. Depois é o homem como animal. Em seguida, vem a dominação e a coisificação que o homem faz de tudo ao seu redor, incluindo o cachorro. Por fim, é o próprio homem que vai virando coisa.
Serviço:
- ''Cãocoisa e Coisa Homem'', espetáculo do Ateliê de Criação Teatral, de Curitiba. Direção e dramaturgia: Aderbal Freire-Filho. Assistência de direção: Sueli Araújo. Elenco: Luis Melo, Nena Inoue, Regina Bastos, Janja, Renata Hardy, Gabriel Gorosito, Andrei Moscheto, André Coelho e Patrícia Ramos.


