TEATRO - A arte da obsessão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de março de 2005
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Num tempo em que tanto se fala em derrubar preconceitos na sociedade, não caberia mais atribuir rótulos ao comportamento humano. Entretanto, a dificuldade em lidar com conceitos de normalidade ou anormalidade ainda afasta as pessoas e cria barreiras excludentes. A arte é uma forma de revelar novas possibilidades. Como exercício de criatividade e descobertas mútuas.
Em ''Bricolage'', espetáculo que estréia hoje em Londrina, na Casa de Cultura da UEL, os rótulos atribuídos à figura do ''doente mental'' são colocados frente à possibilidade de transposição dessas barreiras. O trabalho mostra o resultado de uma experiência compartilhada durante mais de seis meses por Alessandro Antonio, 26 anos, formado em Artes Cênicas pela UEL, e André Akira, 37, usuário do Centro de Atenção Psicossocial (Caps).
Em 2001, Alessandro Antonio iniciou uma pesquisa como estagiário do curso de Artes Cênicas no Caps de Londrina. Uma vivência de dois anos levou o estudante a aprofundar seus estudos sobre arte e comportamento humano, coletando um material que resultou em sua monografia de final de curso, sobre o artista Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). ''Bricolage'' é uma edição desse trabalho e resultado do Projeto Roda, aprovado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) em 2004.
Bricolage é uma palavra francesa que significa a criação de alguma coisa, através de um trabalho amador, com técnicas improvisadas e adaptadas aos materiais e às circunstâncias. O diretor Paulo Braz concebeu um espetáculo que apresenta dois sujeitos obsessivos por dar significados aos objetos. São considerados ''bricolêurs''.
Alessandro Antonio revela ser um espetáculo repleto de signos e de elementos místicos trabalhado a partir de uma dramaturgia da imagem e do som. A mais marcante referência da montagem é o artista Arthur Bispo do Rosário, que viveu praticamente 50 anos numa instituição psiquiátrica do Rio de Janeiro e dedicou sua vida a criar objetos e indumentárias para ''apresentar a Deus no dia do Juízo Final''.
''Não é um trabalho sobre o Bispo, mas uma homenagem a ele, que era um bricolêur'', diz Alessandro Antonio. ''Ele exercitava o ato de retirar objetos do cotidiano, o lixo, sem serventia para a sociedade, e dar a eles um novo significado''. Quem conhece sua obra vai identificar tais referências.
A movimentação de Alessandro e Akira em cena utiliza objetos como canecas, chinelos, roupas para construir e desconstruir imagens cujos significados podem variar em relação a cada pessoa. ''O público também é uma espécie de bricolêur, porque vai coletar cenas fragmentadas e criar sua própria sequência'', comenta. No Caps, onde conviveu com Akira, Alessandro Antonio recolheu impressões, imagens, palavras. Com seu parceiro de cena, pesquisou a gestualidade, o tempo, os sons.
A montagem demandou seis meses (julho a dezemro) de experiências e ensaios. O diretor Paulo Braz aproveitou os meses de janeiro e fevereiro para reformar o espaço cênico da Casa de Cultura e definir o cenário, que trabalha paradoxos dentro e fora, consciente e inconsciente e também remete à relação de Bispo do Rosário com o mar ele foi marinheiro.
''Bricolage'' também teve a participação da professora Marta Dantas, do curso de Artes da UEL, que prestou assessoria sobre Bispo do Rosário, objeto de sua tese de doutorado; e a musicista Janete El Haouli, na pesquisa de uma trilha sonora com linguagem contemporânea. Os figurinos de Stefânia Rosa remetem às peças usadas por Bispo do Rosário, como o manto e a roupa de marinheiro.
Para Marta Dantas, a proposta do trabalho se encontra na intersecção entre a descoberta do outro e determinadas tendências do teatro contemporâneo, como o trabalho do norte-americano Robert Wilson, no ponto em que a vida esbarra na arte e a transforma. ''Bricolage não é um trabalho assistencial ou uma peça adaptada para 'doentes mentais', e nada tem a ver com a idéia de teatro como atividade terapêutica'', descreve a professora.
Serviço:
''Bricolage'', espetáculo com Alessandro Antonio e André Akira. Direção: Paulo Braz. Estréia: hoje, às 21 horas, na Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina (Rua Mato Grosso, 537). Temporada: de hoje a domingo e nos dias 30 e 31 de março, 1, 2 e 3 de abril. Ingressos: R$ 5,00 (R$ 2,50 para estudantes e terceira idade). Patrocínio: Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). Apoio: Divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura da UEL, Àmen, Midiograf e Armazém da Luz.


