Tchê-music, sim senhor!
Não custa tentar, certo? Sabedores de que algumas de suas canções ainda latejam na memória brasileira, Kleiton e Kledir estão retornando ao mundo fonográfico. Quiseram, é verdade, há dois anos se fazer ouvir, serem vistos e admirados como outrora. Quase ninguém deu ouvido a eles. Agora com o amparo de uma gravadora de porte, no caso a Universal (ex-Polygram), os irmãos gaúchos estão conjugando o verbo tentar com o disco Clássicos do Sul. Conseguirão?
Eles acham que sim. Para nós é um recomeço e estamos voltando com muito gás porque sabemos que há um espaço muito nosso na MPB- analisa Kledir. Tá, até aí ele tem razão já que na década de 80 a dupla era uma fazedora de hits que tocaram até nas rádios - lembram-se de Deu Pra Ti, Nem Pensar, Vira, Virou, Tô que Tô, Fonte da Saudade, entre outras? Pois muito bem, deixemos reminiscências musicais à parte para falar de Clássicos do Sul. Que como o próprio nome diz traz pérolas do cancioneiro sulista, mais especificamente do Rio Grande do Sul. Mas como ninguém tem muita paciência para ouvir algumas daquelas lenga-lengas gauchescas assim, cruas, Kleiton e Kledir resolveram dar uma revestida sonora mais pop em algumas dessas pepitas .
ReproduçãoEles revestem de sonoridade pop algumas pepitas sulistasResultado: Clássicos do Sul é um disco agradável à primeira ouvida. Mas a partir da segunda ouvida é impossível deixar de se perceber que é um produto só e unicamente agradável. Ou seja, a intenção foi boa mas o resultado final deixa um cadinho a desejar. Ouve-se, ouve-se e no final a pergunta que salta à boca é: e daí? Há algumas participações especialíssimas como o argentino Pedro Aznar (violão e baixo) e Luiz Carlos Borges (acordeão). Não há teclados nem bateria. Entram, no entanto, metais (bem dosados), cordas (vigorosas), percussão acústica e, principalmente, eletrônica. O estofo sonoro modernex até que funciona. O problema é que em algumas releituras os loopings e afins ficaram simplesmente o ó do borogodó.
Exemplos? Por falta de um, dois. O primeiro, Nuvem Passageira (Hermes de Aquino) que perdeu a singeleza para se tranformar em algo desvairado, com pretensioso apelo dance. O outro, é o reggae meia boca que permeia Gaúcho de Passo Fundo (de Teixeirinha). Agora, se é pra chutar o pau da barraca ouçam Pezinho (aquela do Ai, bota aqui, ai bota ali o seu pezinho...) em que uma certa Xuxa Meneghel (aquela do ilariê, ô,ô,ô) solta seus miados. Ui!! Mesmo que o repertório seja composto de algumas pérolas manjadas, há algumas boas surpresas em Clássicos do Sul. Haragana (Quico Castro Neves), gravado em ritmo de baião no primeiro disco de Fafá de Belém, em 76, ganha agora sua cadência rítmica correta e prazerosa. Junte-se a essa canção, Balaio que tornou-se uma chula prafrentex e agradável.
Por incrível que pareça, a melhor faixa do disco é a última. Exatamente Gauchinha Bem Querer (Tito Madi) cuja delicadeza é acentuada por um sutil solavanco bossa-novístico. De se ouvir e ouvir. Vamos colocar ordem na casa: clássicos são clássicos. Podem e devem ser revistos da maneira que melhor convier a quem se propuser a mexer no baú de memórias musicais brasileiras.
Kleiton e Kledir e cia. entenderam que certas canções sulistas mereceriam um tratamento mais moderno. Mais pop, por que não? Vão se fazer notados e ouvidos, é certo! Entretanto, Clássicos do Sul nada mais é que um disco festivo e descompromissado. Encaixa-se perfeitamente na categoria Tchê-music cujo compromisso, como sua prima distante a axé-music, é animar a festa para desespero dos puristas.DivulgaçãoKleiton e Kledir: de novo no mercado com hits sulistas para gaúcho nenhum botar defeitoAntônio Mariano Júnior





