São Paulo, 27 (AE) - Será reaberto amanhã, às 19h30, com uma festa na Rua Major Diogo (para convidados), o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), marco simbólico de toda uma geração do palco no Brasil. A festa na rua terá a participação dos grupos Parlapatões, Vix em Ré e Pombas Urbanas. Também haverá um esquete cênico de Romeu e Julieta, de Shakespeare, na sacada do prédio, e participação dos atores Walmor Chagas e Cleyde Yáconis.
O TBC tem 51 anos de história, mas ultimamente apresentava sérios problemas estruturais e de manutenção. A reforma do teatro custou cerca de R$ 4 milhões (mais R$ 400 mil previstos para serem gastos com mídia) e foi encabeçada pelo empresário Marcos Tidemann Duarte, do setor de distribuição de combustíveis (é um dos donos da Hudson), e pelo músico Eduardo Gudin.
Não houve apoio financeiro do Estado para a recuperação do espaço. O projeto de reforma do TBC foi inscrito na Lei Rouanet, mas ainda não foi aprovado. O motivo é inacreditável: o processo foi extraviado durante tramitação no Ministério da Cultura.
"Nós vínhamos estudando fazia dois anos criar um espaço para a cultura", disse o empresário Marcos Tidemann. O TBC só passou a ser uma boa opção quando o empresário chegou à conclusão de que, além de ajudar no revigoramento da região central de São Paulo, o projeto também tinha boas perspectivas financeiras.
"É viável financeiramente", afirmou. "Nós esperamos obter um retorno em pouco tempo e mostrar que cultura também pode ser um bom negócio." Tidemann realmente parece demonstrar fé na empreitada: com o dinheiro investido, ele crê que daria para abrir sete ou oito postos de gasolina na sua rede.
O TBC foi aberto em 1948 pelo empresário italiano Franco Zampari, um dos patronos pioneiros do teatro nacional. Tem quatro salas de espetáculos - TBC, Arena, Assobradado e Arte -, que foram mantidas na reforma. Mas o resto foi todo trocado: equipamentos, piso, poltronas, instalações elétricas e hidráulicas. A sala principal ganhou mesas de som e luz de última geração e o teatro agora está dotado de novos camarins e banheiros. A fachada foi restaurada e o prédio ganhou novo bar e sala de exposições.
Documentos raros - A sala de exposições recebe a partir de amanhã uma mostra de fotografias da época áurea do teatro, com curadoria do ator, diretor e produtor Maurice Vaneau. As fotografias, em sua maioria, são do acervo de Fredi Kleeman, grande fotógrafo da época, e de Júlio Agostinelli, que foi ator e fotógrafo no TBC. "O mais triste é descobrir que sobraram tão poucos documentos aqui", disse Vaneau, que levantou parte do material nos arquivos particulares de atores como Antonio Fagundes e Antonio Abujamra. "As pessoas que estiveram aqui antes devem ter achado que eram apenas velharias e jogaram no lixo."
Nascido na Bélgica, Maurice Vaneau esteve no Brasil em 1955 em uma turnê do Teatro Nacional da Bélgica. Franco Zampari convidou-o para ser diretor artístico do teatro e ele voltou em 1956, quando encenou A Casa de Chá do Luar de Agosto. Tinha então 29 anos. Em 1963, encenou sua última peça no TBC, Os Ossos do Barão. "O curioso é que tanto a primeira quanto a última foram as de maior público", lembra Vaneau.
O projeto de restauração é do cenógrafo J.C. Serroni, que procurou manter as características do teatro original, apesar do "banho" de modernidade. O TBC foi, na verdade, um prédio "transformado" em teatro por Zampari. Abrigou e viu o nascimento das mais importantes companhias de teatro do País, como as de Cacilda Becker, Tônia Carrero, Ziembinski, Adolfo Celi e Paulo Autran.
Em sua nova fase, o TBC deverá alternar a apresentação de espetáculos consagrados com um núcleo de formação e exibição de trabalhos de autores e atores jovens. É uma vocação que o teatro já exercitara nos anos 50, quando abrigou peças de jovens autores da Escola de Arte Dramática de Alfredo Mesquita (1907-1986). O TBC alinhava-se na convicção de Mesquita de que o teatro brasileiro carecia especialmente de cultura, disciplina e preparo técnico e isso só poderia ser superado com o exercício contínuo.
Programação - A programação de abertura começa na quinta
com a apresentação do Repertório Parlapatões, na Sala Repertório. A sala Assobradado, preparada para receber espetáculos musicais, terá também na quinta o show de lançamento do CD Luiz Melodia Acústico ao Vivo, espetáculo que terá sessões também na sexta, no sábado e no domingo. Na sexta e no sábado, na Sala Arte, o grupo Vix em Ré mostra a peça Pode Ser Que Seja só o Leiteiro lá fora, texto de Caio Fernando Abreu. A prova de fogo da Sala TBC do teatro será a leitura do texto da peça Cacilda 3, de José Celso Martinez Corrêa, que será apresentada no sábado e no domingo, às 20h30. O teatro terá ainda, na sequência, Ventre de Lona (grupo Pombas Urbanas), Fora do Eixo (grupo Os Coveiros) e a primeira apresentação em São Paulo da peça Dolores, baseada na vida de Dolores Duran, no dia 21. Teatro Brasileiro de Comédia. Reabertura na terça, para convidados. Rua Major Diogo, 315 (tel. 3105-1397). Quarta, Repertório Parlapatões. Sexta, Vix em Ré. Sábado e domingo, Cacilda 3, com o Oficina. Bilheteria no local, das 13 às 21 horas

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