Taylor Swift abraça indie folk em disco-surpresa soturno e íntimo
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sexta-feira, 24 de julho de 2020
LUCAS BRÊDA 
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando Taylor Swift anunciou seu penúltimo álbum, "Lover", ela apareceu contracenando com Brendon Urie -vocalista do Panic! at The Disco- num clipe colorido e megalomaníaco, da música "ME!". Para o álbum anterior, "Reputation", apresentou a persona vingativa em "Look What You Made Me Do", encarnando uma espécie de zumbi num cemitério e ostentando ouro numa banheira.
Os dois trabalhos mais recentes da cantora não renderam o quanto ela queria. Ainda que tenham sido bem recebidos pela crítica, não tiveram o desempenho de vendas à altura do histórico da cantora, uma das grandes estrelas da música atual.
Além disso, falharam em ganhar prêmios no Grammy, algo que -sabemos, graças ao documentário recente "Miss Americana"- tem uma importância ainda maior para Swift.
Talvez por isso seu novo disco, "Folklore", chegou aos serviços de streaming menos de 24 horas depois de ter sido anunciado. Na verdade, a falta de alarde não está só no esquema de divulgação, mas também na capa -uma imagem da cantora, distante, em preto e branco, numa floresta- e no conteúdo musical.
Apesar do nome, "Folklore" não é um disco de folk, mas um conjunto de canções soturnas e reflexivas, calcadas em pianos ou violões e arranjos melódicos de cordas. De toda forma, é o trabalho com o menor apelo pop de toda a carreira da cantora.
"Estou bem, interessada em novas coisas", ela canta em "The 1", a primeira faixa . A frase é tanto um anúncio quanto um alento. Swift está cantando sobre tudo o que sempre cantou --relacionamentos, num estilo que funciona como a versão musical de uma comédia romântica--, agora com um olhar mais maduro e seguro.
Em faixas como "Mirrorball", sua voz é manipulada em harmonias viajadas e suaves, enquanto ela se apresenta crente num amor que já parece perdido -"posso mudar tudo sobre mim para me encaixar/ você não é como os comuns".
Ela medita sobre destino e desfechos e tenta entender as mudanças com uma postura mais serena. Em "Folklore", o término não parece ser um dia de sofrimento intenso, e sim semanas de uma dor que pode ser controlada, mas que visita com frequência os pensamentos da cantora.
A grande novidade, no entanto, está na produção. Em vez do nome do momento da indústria do pop, como Jack Antonoff -com quem trabalhou em seus três últimos discos e aparece em só seis faixas no novo trabalho--, ela apostou em artistas consagrados do indie folk. A principal presença é Aaron Dessner, guitarrista da banda The National que, a distância, atuou como cocompositor ou coprodutor em 11 das 13 faixas do álbum.
Dessner é conhecido pelas texturas sombrias e sonoridade espaçada, uma abordagem que transparece em "Folklore". Ao longo das 16 faixas, Swift soa como nunca antes. Ela aparece com uma voz incomumente limpa, e o piano e violões que sempre a acompanharam agora soam esparsos e distantes, com arranjos delicados que crescem e se multiplicam acompanhando o drama das músicas.
O disco dispensa tanto as batidas quanto os arranjos eletrônicos, que abundavam em "Reputation", de 2017, e apareciam ainda com destaque em "Lover", do ano passado. Esteticamente, "Folklore" lembra tanto "Morning Phase", disco de 2014 de Beck que ganhou o Grammy de álbum do ano, quanto "For Emma, Forever Ago", de 2007, do cantor e produtor Bon Iver.
Não à toa, Bon Iver é a única participação do álbum, na faixa "Exile". Um dos pontos altos de "Folklore", a música é um dueto -no melhor estilo "Shallow"- em que Iver faz um vocal estranhamente grave enquanto a dupla canta o fim de um relacionamento de diferentes perspectivas.
Apesar de "Folklore" soar deslocado em relação aos últimos discos de Swift, os fãs antigos vão reconhecer a cantora tanto no estilo de composição quanto nas melodias vocais. A melancolia e a desilusão amorosa remete à primeira fase da cantora, de quando uma Swift adolescente despontava e ganhava o mainstream no fim da década de 2000.
Na prática, "Folklore" não é um disco despretensioso, mas as pretensões de Swift mudaram. Em vez de singles com a cara do que atualmente habita o topo da parada da Billboard, ela se aprofunda naquilo que sempre foram suas virtudes --suas letras e sua abordagem pessoal para temas românticos.
De certa forma, em "Folklore", Swift parece ter desistido de buscar no mundo pop o próximo passo de sua carreira. Agora, ela procura a originalidade na própria intimidade -um caminho que parecia natural depois de "1989", de 2014, e de "Red", de 2012, mas que ficou de lado nos últimos discos.
FOLKLORE
Onde: Nas plataformas de streaming
Autor: Taylor Swift
Produção: Aaron Dessner, Jack Antonoff
Gravadora: Independente
Avaliação: Bom


