Tavernier destaca responsabilidade social do artista
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segunda-feira, 13 de dezembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 13 (AE) - Tudo começou em família. A filha de Bertrand Tavernier ficou noiva do professor de uma escola maternal. Ele - Dominique Sampier - começou a contar ao sogro histórias que ilustravam o problema da escola pré-primária na França. Tavernier percebeu o potencial dramático dessas histórias. Com a filha Tiffany (a quem chama carinhosamente de Fany) desenvolveu o roteiro. E fez "Quando Tudo Começa...", seu belo filme em cartaz desde sexta-feira nos cinemas de São Paulo.
É um filme denso, de um realismo social à Ken Loach. Um filme sobre um professor que luta contra a burocracia e a miséria, numa escola do interior da França. Uma obra que procura interferir na realidade, no sentido de mudá-la. Outro diretor talvez se aborrecesse com a comparação a Ken Loach. O cineasta de "Terra e Liberdade" não é muito apreciado pelo público francês e, menos ainda, pelos críticos. Não é o caso de Tavernier. "Amo "Raining Stones", é um grande filme." Ele acha instigante a forma como Loach mistura atores e não profissionais. Concorda que há todo um lado que o aproxima do diretor inglês em "Quando Tudo Começa..." Mas, com a propriedade de quem foi crítico, observa: "Ken jamais faria esses planos líricos da paisagem, mesmo que, sobre eles, eu superponha um texto crítico."
O ex-crítico Tavernier virou um bom, às vezes grande, diretor. O antigo fã da produção B americana vem desenvolvendo uma obra tão diversificada quanto atraente. Falando de Paris, pelo telefone, ele justifica a diversidade de gêneros (Simenon em "LHorloger de Saint-Paul", ficção científica em "A Morte ao Vivo, jazz em "Por Volta da Meia-Noite", impressionismo em "Um Sonho de Domingo", capa-e-espada em "A Filha de DArtagnan", realismo social em L627, A Isca" e Quando Tudo Começa...") dizendo que sua característica mais marcante é a curiosidade. "Gosto de mudar, de pesquisar, sou atraído pela novidade."
O que leva a uma conversa sobre o problema do estilo. Tavernier não é consciente de possuir um estilo, acha mesmo que não tem. Há cineastas que têm um estilo bem definido: Michelangelo Antonioni, Ingmar Bergman, Federico Fellini, Alfred Hitchcock. Pode ser um estilo visual ou narrativo. E há os que mudam de filme para filme, mas mantêm a coerência a uma visão de mundo, àquilo que Tavernier chama de "universo". Entre eles, estão alguns dos diretores a quem Tavernier mais admira: Akira Kurosawa, Michael Powell e até John Huston ("Sua produção é irregular e há filmes de encomenda que ele fez com evidente má vontade, mas quando acertava era grande"). Outro cineasta sem estilo, que muda segundo suas fases, é Alberto Cavalcanti. Merece todo o respeito de Tavernier. Seus planos atuais incluem o importante diretor brasileiro.
Bertrand Tavernier é incapaz de escolher um filme preferido, entre os que realizou. Gosta mais de alguns, acha outros equivocados, mas diz que fez só os filmes que queria fazer, do jeito que queria e, por isso, não destaca nenhum. Ou melhor: em entrevista por telefone destacou "Quando Tudo Começa...". "Esse filme ainda é muito forte para mim, não paro de receber manifestações de carinho de espectadores de todo o mundo." Quando o filme passou em San Sebastián, professores espanhóis disseram que a luta do filme é a luta deles. Em Chicago, uma professora quis saber como Tavernier havia conseguido contar a história dela.
É com orgulho, verdadeiramente lisonjeado, que ele diz que a escola na qual se passa o filme se chama hoje Escola Bertrand Tavernier. Dá o endereço: Rue Derrire le Hais, em Hernaing, 59410. Repete o que tem feito em todo o mundo: pede que o repórter envie um folheto, uma ilustração qualquer sobre o Brasil. "A escola tem recebido muitas dessas ofertas que permitem aumentar o conhecimento das crianças sobre o mundo." Acrescenta, enciclopédico, que a cidade mineira já fazia parte da história da literatura. Foi lá que Émile Zola se refugiou para pesquisar e escrever "Germinal".
Concorda com a afirmação de Godard, segundo a qual todo documentário tende à ficção e toda ficção tem um pouco de documentário. Ele aceita que se diga que"Quando Tudo Começa..." tem um lado documentário muito forte. É o documentário mais a emoção. Mas explica que não pretendeu fazer um documentário.Cita a cena em que o professor visita a casa de Madame Henri. Ele entra, vê a desordem, um mundo que lhe parece estranho. "Mas eu não olho como um documentarista, se olhasse teria de mostrar mais detalhes que não me interessam."
Crianças - Nessa e em todas as demais cenas de "Quando Tudo Começa...", o que importa é a mise-en-scne e a organização do espaço, do ator, dos objetos, da câmera - é o contrário daquilo que se espera de um documentário, mesmo autoral. Tavernier explica o prodigioso trabalho com as crianças: "Minha filha foi pesquisar naquela escola, a equipe reduzida ficou algumas semanas no local, antes da rodagem, e Philippe Torreton, que faz o professor, tinha muito jeito com elas; comportava-se como um professor de verdade; as crianças acostumaram-se conosco, éramos parte da família e a rodagem transcorreu sem problemas."
Indigna-se com a realidade focalizada no filme. "Como é possível que, na França, um país que se considera civilizado, exista esse descaso com a pessoa humana?" Critica o mundo globalizado, os governos que só pensam em estatísticas, cifras e planejamentos globais, esquecendo a pessoa, que deve ser a base de tudo. Não quis apenas denunciar a injustiça, quis exaltar a luta dos que ficam de pé, dos que desafiam a autoridade e tentam
como o professor, fazer-se ouvir num mundo surdo. E conta: "Você sabia que o filme já deu resultados práticos?" Não só o filme, mas a luta de associações e pessoas em toda a França. "Existe agora uma lei segundo a qual a companhia nacional de eletricidade não pode mais cortar a luz dos inadimplentes, como faz na casa de Madame Henri."
Nenhum outro filme de Tavernier, nem "Le Juge et lAssassin", que reconstitui um crime célebre, nem "A Isca", sobre a violência dos jovens, provocou tanta discussão. Ele diz que foi e ainda é convidado para levar "Quando Tudo Começa..." e discutir a questão educacional por toda a França. Em geral, os debates evoluem para considerações mais amplas sobre o atual governo francês. Faz isso convencido de que o artista tem responsabilidades sociais, às quais não deve furtar-se. Acha que o cinema pode e deve contribuir para o debate da questão social. Mas reconhece limites: "Sou um diretor, não um político."
Projeto - Prepara atualmente o próximo projeto. Será um filme desenrolado no período em que a França esteve ocupada pelos nazistas. Vai tratar de uma equipe francesa de cinema que trabalha com a empresa alemã Continental. Será O Último Metrô do cinema? "Gosto do filme de Truffaut, mas imagino algo diferente; um filme menos baseado no universo do cinema e mais voltado à discussão das relações entre ocupantes e ocupados." Diretor do Institut Lumire, em Lyon, que se dedica à discussão e ao incentivo da produção audiovisual, anuncia a novidade que diz respeito ao Brasil.
Brasil - O instituto tem uma coleção de livros em colaboração com a editora Actes du Sud. O próximo volume da coleção Lumire/Actes du Sud, que deverá sair na primavera francesa (a partir de março), será dedicado ao cineasta brasileiro de projeção internacional Alberto Cavalcanti. A coleção possui cerca de uma vintena de títulos. Entre eles há "Amis Américains", o volume com a seleção de textos sobre grandes diretores americanos, que Tavernier escreveu baseado em suas experiências como assessor de Imprensa em Paris, nos anos 50 e princípio dos 60. É uma pena que esse livro primoroso nunca tenha interessado aos editores brasileiros. Mas a coleção privilegia principalmente os autores que Tavernier considera grandes (e injustiçados).
Cita o inglês Michael Powell, uma referência permanente, quando se fala com ele, os irmãos Taviani. "Cavalcanti teve uma trajetória muito interessante, do Brasil para o mundo, do mundo para o Brasil e, de novo, para o mundo." Participou da vanguarda francesa e do movimento documentarista inglês. No Brasil, teve participação decisiva no projeto da Vera Cruz. Tavernier acha o máximo uma afirmação de Cavalcanti: "Se você quiser contar a história do correio conte a história de uma carta; se contar direito, estará contando a história do correio." Ele não é o autor do livro, mas o responsável pela edição. Acrescenta que pediu a Nelson Pereira dos Santos que escreva o prefácio. "Nelson aceitou, mas já estamos no prazo final e eu continuo esperando o texto." Com o livro, o Instituto Lumire planeja fazer uma retrospectiva dos filmes de Cavalcanti na França. "Será uma grande maneira de iniciar o ano 2000", conclui Tavernier. Quando Tudo Começa... Drama. Direção de Bertrand Tavernier. Com Philippe Torreton, Maria Pitarresi, Nadia Kaci. Duração: 117 minutos. 12 anos. Distribuição: Imovision


