O corpo humano é um tesouro estético. Busca-se a todo custo preservá-lo em sua perfeição, e cada vez mais aprimorar sua beleza. Para se sentir belo, o homem toma atitudes que vão desde se pintar a submeter-se a cirurgias. Isso é uma forma de tentar definir a si mesmo no meio social - assim também os animais baseiam seus relacionamentos pela aparência do outro. É natural, então, que tenhamos um instinto muito forte de preservação da integridade de nosso corpo.
Mas ao homem foi dada consciência justamente para que pudesse questionar e subverter seus instintos - e ele encontrou uma forma de ''macular'' esse físico com alguma marca permanente, e de forma proposital: a tatuagem. Tecnicamente, tatuagem é uma aplicação subcutânea de pigmentos, feita por meio de uma agulha. Embora até haja técnicas de se remover essa marca, o que atrai as pessoas é justamente o seu caráter permanente.
Na prática, a tatuagem é uma marca dolorosa, que, assim como determinadas cicatrizes, acompanhará a pessoa pelo resto de sua vida. A diferença é que a tatuagem é carregada de simbolismo: através dela, a pessoa estará carregando também uma expressão, uma revelação sobre si mesma, um pouco de sua história, um desejo de ser diferente ou simplesmente uma vontade estética.
Para o tatuador Márcio Demétrio Lopes, 28 anos, a profissão é uma arte, já que demanda muito mais do que o simples conhecimento técnico. ''Se a pessoa não tiver uma veia artística, não vai conseguir. Porque sempre que eu vou fazer uma tatuagem, coloco nela o meu traço. Nenhum tatuador fará um desenho igual ao de outro'', argumenta. ''Qual o conceito de arte? É o observador quem atribui esse conceito. Nesse sentido, com certeza a tatuagem é sim uma arte'', complementa Daniel Fabris, 32 anos, que, além de tatuador, é formado em Artes Plásticas.
Assim como a pintura vale-se de pincéis de várias espessuras, a tatuagem também utiliza agulhas com bicos diversos. E a gama de cores é igualmente extensa. ''Além disso, é preciso pensar bem o que vai ser feito e onde, porque o corpo não é plano, tem suas variações. É preciso respeitar sua anatomia para não haver deformações no desenho'', ensina o tatuador Mauro Montezuma, 29 anos.
Segundo Montezuma, o desenvolvimento das técnicas e dos materiais possibilitou uma perfeição maior dos desenhos, que ganharam traços mais exatos, nuances de cores e de sombras e novos estilos. Mas, assim como há desenhos que não são artísticos, há as tatuagens que igualmente são apenas a reprodução de um desenho - é o caso de boa parte das tatuagens comerciais.
Outra semelhança com as artes plásticas é que a tatuagem também é classificada em estilos (como o old school, com desenhos mais clássicos, e o new school, com motivos mais estilizados, em um trabalho que lembra o dos grafiteiros) e tem seus especialistas. ''Dependendo do desenho que me pedem, eu indico outro tatuador, por ser mais a área dele'', revela Montezuma, adepto do old school.
O fato de o desenho envelhecer junto com a pele, perdendo um pouco da pigmentação e a exatidão dos contornos com o passar dos anos, é outra característica que torna a tatuagem uma arte, pelo menos para quem a tem: ao registrar a passagem do tempo, ela simboliza o envelhecimento e se torna uma obra tão fugaz quanto o próprio corpo humano.

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