São Paulo - Difícil imaginar o que se passa debaixo daquele chapéu. Item indispensável do visual de Tatá Aeroplano, se tornou, por si só, um artefato quase místico graças à pluralidade de ideias do dono. Na cena musical independente paulistana desde meados dos anos 2000, o músico, cantor, compositor e DJ de 37 anos é figurinha facilmente vista no Baixo Augusta, sua segunda casa, ou nas ruas de Santa Cecília, em São Paulo, onde mora. Transita caladão, um observador por natureza. Sempre de chapéu.
Debaixo dele saíram músicas para suas muitas bandas (Jumbo Elektro, Zeroum, Elétrons Medievais, Sociedade da Grã-Ordem Mojiquista, Luz de Caroline, Frame Circus e Cérebro Eletrônico), colaborações mil com gente de sua geração (Tulipa Ruiz, a banda Supercordas, Bárbara Eugênia, Trupe Chá de Boldo, Dudu Tsuda e Tiê), em canções que aliam vanguarda paulistana, Jovem Guarda, psicodelia e tropicalismo.
Mas veio o momento em que as composições não se encaixaram em nenhum outro trabalho colaborativo. Sempre bem acompanhado, Tatá Aeroplano se viu diante de um disco solo.
O disco, independente, leva seu nome e chega em CD, vinil (que inclui compacto de sete polegadas com as faixas que não couberam) e pode ser baixado gratuitamente no site (www.tataaeroplano.com). Adepto das novas leis do mercado fonográfico, Tatá se diz feliz com a divulgação. Já no começo do mês, o álbum tinha sido baixado 3 mil vezes e o bolachão estava próximo de esgotar a primeira tiragem de 250 cópias.
O fetiche por LPs de Tatá foi herdado do pai, que sempre aparecia em casa com uma nova aquisição. ''Eu tinha 3 anos quando meu pai chegou com 'Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás' (1976), do Raul Seixas. Depois veio 'O Dia Em Que a Terra Parou' (1976), também do Raul. Você consegue imaginar o impacto disso na cabeça de uma criança? (risos).'' Em sua casa, hoje, Tatá tem mil LPs e perdeu a conta dos CDs. Na dos pais, em Bragança Paulista (SP), onde morou até 2001, são cinco mil exemplares de 78 rotações por minuto.
Muito da carreira pode ser explicado pela infância no interior. Nas férias, os pais levavam os quatro filhos no carro para viagens sem destino. Com o mapa aberto, escolhiam cidades com os nomes mais divertidos. ''Chegávamos a cidades com uma rua'', diverte-se. A liberdade de ir aonde desse na telha traduziu-se em criatividade sem freios, sem gêneros.
''Tatá Aeroplano'', o álbum, foi gestado desde 2009, antes mesmo de ''Deus e o Diabo na Terra do Liquidificador'', disco com o Cérebro Eletrônico. Para ajudá-lo a produzir, o músico chamou Dustan Gallas (Cidadão Instigado) e Junior Boca, dupla responsável pelo ar pop retrô do disco de Bárbara Eugênia, ''Jornal de BAD'' (2010). Daí a sonoridade vintage, cheia de texturas (cortesia de Gallas). Léo Cavalcanti, também da geração indie, participa de ''Sartriana'' (autoria dos dois) e ''Tudo Parado Na City''. Já ''Bárbara canta em Uma Janela Aberta'', parceria entre Tatá e o poeta Arruda.
O álbum é fruto de realidade e ficção, 10 contos resultantes de sua vivência, sonhos mirabolantes e sua constante observação. ''Componho andando na rua'', diz. ''A música, para mim, tem aura mística, como se, ao compor, eu visitasse um lugar onde todos os compositores vão ao escrever'', explica.
Tatá tem o hábito de escrever seus sonhos logo ao acordar. Certa vez, escreveu quatro páginas de um sonho que durou várias noites. Da mesma forma é quando compõe. Seu álbum, então, é uma reunião de fotografias, de vivência, conscientes ou não. ''Retratos do Baixo Augusta'' de uns poucos anos atrás (''Par de Tapas Que Doeu em Mim'', ''Tudo Parado na City'', ''Night Purpurina'') ou de um coração dilacerado (a angustiante ''Te Desejo, Mas Te Refuto''). Ao assinar seu trabalho solo, ele escancara quem é. Como mostra uma das fotos do encarte, debaixo do chapéu há um sujeito de verdades e incertezas, trilhando seu caminho em um mapa imaginário.

Serviço:
- Tatá Aeroplano
Artista - Tatá Aeroplano
Gravadora - Independente
Quanto - R$ 15 (CD) e R$ 50 (vinil)

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