Curitiba - Enquanto a maioria dos grupos teatrais sonha em ganhar os grandes palcos nacionais e internacionais, a companhia curitibana Cia Senhas de Teatro decidiu realizar o caminho inverso. Estréia hoje, na periferia da cidade, a montagem de uma das obras mais polêmicas de Jean Baptiste Poquelin MoliSre (1622 - 1736): ‘‘Tartufo’’. Escrita pelo dramaturgo francês em 1664, a peça foi adaptada pela diretora Sueli Araújo para ser apresentada nas ruas, tendo como cenário a carroceria de uma kombi. Trata-se de um projeto inédito de uma das companhias que vêm se destacando no cenário teatral de Curitiba – e nos festivais em que participa – desde que foi criada, há três anos.
‘‘Tartufo’’ é um espetáculo sobre o fanatismo religioso. Apesar de ter sido concebido para denunciar a falsa moral da época (e aqui, qualquer semelhança com os dias de hoje terá sido mera coincidência), ganhou espaço na história mundial do teatro como uma irresistível comédia. Por um prisma, a temática é bem diferente do mais recente espetáculo da Cia Senhas, ‘‘Devorate-me’’ (2001), premiada na última edição do Troféu Gralha Azul. ‘‘A relação é ideológia’’, explica a diretora do espetáculo.
Ela ressalta que a companhia não quer ficar presa a estratagemas que deram certo em espetáculos anteriores, mas esclarece que o objetivo é o mesmo. ‘‘Queremos nos comunicar com o público.’’ Por isso, salienta Sueli, a companhia optou por estrear ‘‘Tartufo’’ na periferia, bem longe das poltronas de veludo, mas bem perto de uma platéia apta a receber o teatro na sua forma mais original. ‘‘Ir para as ruas era uma necessidade da companhia’’, enfatiza a diretora. ‘‘É uma platéia sem compromisso com os códigos de comportamento impostos pela caixa’’, diz, se referindo às tradicionais casas de espetáculos.
A idéia do projeto surgiu no ano passado e ‘‘Tartufo’’ pode ser colocado em prática por meio da Lei Rouanet, com recursos da Conta Cultura e patrocínio da Petrobras. O resultado será mostrado a partir de hoje, no espetáculo que dá início a uma série de apresentações que vão acontecer na periferia da cidade até o início de junho, numa agenda definida pela Fundação Cultural de Curitiba. ‘‘A idéia é chegarmos no espaço fazendo alusão às grandes festas populares. Por isso escolhemos a kombi’’, adianta Sueli.
Os ensaios de ‘‘Tartufo’’ começaram em janeiro deste ano. Alguns deles foram feitos no Passeio Público, no centro da cidade.‘‘Esse contato com o público foi muito importante para a concepção do espetáculo’’, revela a diretora. Na adaptação da Cia Senhas, cinco atores da companhia interpretam a comédia de MoliSre. A farsa conta a história de uma família que recebe Tartufo, um mentiroso convicto. ‘‘O espetáculo mostra o estigma do mentiroso, que através da palavra vai convencendo as pessoas apenas com o objetivo de se dar bem’’.
Encenam as artimanhas do falso devoto, os atores Olga Nenevê, Eduardo Giacomini, Anderson Lau, Ana Rosa Tezza e Tuca Franchine. Paulo de Marchi assina a direção musical, que a exemplo de ‘‘Devorate-me’’ utiliza basicamente instrumentos de percussão executados ao vivo. A direção de produção do espetáculo é de Márcia Moraes.
SERVIÇO
Tartufo, de Moliére, com a Cia Senhas de Teatro. A partir de hoje até junho nas ruas da periferia de Curitiba. Os locais e horários podem ser confirmados pelo telefone (0xx41) 262 5918.

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