Quentin Tarantino foi o entrevistado de segunda-feira no ''Bom-Dia America''. Ele também estará diariamente na TV norte-americana, esta semana, apresentando um festival formado por seus spaghetti westerns preferidos. Isso coincide com a estréia de ''Mystic River'', o novo Clint Eastwood, ocorrida ontem nos EUA. Eastwood tornou-se um ícone nos faroestes italianos de Sergio Leone, mas Tarantino está mais interessado em Sergio Corbucci, que fez ''Django''. Nas bancas de jornais e revistas, para todo o lado que se vire você só vê Uma Thurman, Vivica A. Fox, Lucy Liu e Daryl Hannah nas capas das principais revistas.
Tudo isso, essa superexposição do diretor e das estrelas, faz parte de uma campanha muito bem orquestrada da Miramax para promover o lançamento do novo filme de Tarantino. ''Kill Bill'' que estréia amanhã nos cinemas norte-americanos. Logo na abertura, os créditos imitam a abertura daqueles filmes de kung fu que os lendários irmãos Shaw Shaw produziam em Hong Kong. ''Kill Bill'' é pura pauleira. Uma história de vingança na qual jorra sangue - e você vai ver que jorra mesmo, quando ''Kill Bill'', distribuído no Brasil pela Lumière, estrear em fevereiro. Sangue, muito sangue, mas nenhum tiro. As mortes são todas por espada, no estilo dos action movies de Hong Kong que, durante anos, fizeram a cabeça de Tarantino.
Logo na abertura, após a citação aos Shaw Shaw Brothers, entra o logotipo da Miramax e outro letreiro anuncia ''o quarto filme de Quentin Tarantino''. Toda a publicidade de ''Kill Bill'' está sendo feita em torno disso. Para Tarantino, é a chance de um renascimento. O diretor nos lembra que fez só três filmes antes: ''Cães de Aluguel'', ''Tempo de Violência'' e ''Jackie Brown''. Ele pode ter-se ligado a Robert Rodriguez para filmes que fizeram os críticos duvidar do extraordinário talento que revelou em ''Pulp Fiction'', mas aqueles, Tarantino quer deixar claro, eram trabalhos do diretor tex-mex.
O cartaz de ''Kill Bill'' mostra uma mão de mulher que empunha uma espada. Em cima, a frase: ''Here comes the bride.'' A noiva que está chegando é a personagem de Uma Thurman - heroína do mangá em que o cineasta se baseou para fazer o filme que homenageia spaghetti westerns, aventuras chinesas de artes marciais e japonesas de samurais. Um monumental filme B. Tarantino disse ao ''Bom-Dia America'' que esse foi o filme que ele se preparou durante 35 anos para fazer. É a súmula de tudo o que viu e o inspirou, desde a infância. Não tinha idade para assistir à explosão dos filmes de kung fu no começo dos anos 1970, mas resgatou-os depois - em vídeo. Tarantino é um produto da videomania.
''Kill Bill'' promete arrebentar. A Miramax percebeu o potencial desse cult programado e partiu o filme em dois. A segunda parte estréia em 20 de fevereiro de 2004. A noiva, Uma Thurman, vinga-se do grupo de elite, chamado Deadly Viper Assassination Squad, que a atacou na igreja, quando estava para se casar. Fica ela estrebuchando no chão, vestida de noiva. Estava grávida. Os vilões cometeram um erro fatal. Deixaram-na viva para vingar-se e agora a noiva vai atrás de cada um deles. No primeiro episódio, morrem as personagens de Vivica A. Fox e Lucy Liu. No segundo, vão morrer Daryl Hannah e Michael Madsen, mas o objetivo, nos dois filmes, é matar Bill (Kill Bill), o chefe da organização criminosa. É interpretado por David Carradine, que estrelou a série ''Kung Fu'' na TV americana. Carradine nem aparece no volume um de ''Kill Bill''.
O filme mistura linguagens e estilos visuais e sonoros. Tem uma admirável sequência animada de quase dez minutos, contando a história da personagem de Lucy Liu e de como ela se tornou a rainha do submundo de Tóquio. E Tarantino usa a música como Leone. Há cenas inteiras sob os acordes das trilhas de Luis Bacalov e das músicas dos action movies de Kinji Fukasaku, o diretor de Hong Kong que morreu em janeiro. Tarantino recorre a dois atores de Fukasaku - o lendário Sonny Chiba, chamado de Charles Bronson do Japão, e a jovem Chyaki Kuryama. Ela parece uma boneca de porcelana. É delicadíssima quando conversa com o repórter. Na tela, é uma peste, no papel de uma escolar perversa e sanguinária.
Ainda é cedo para saber se ''Kill Bill'' vai mesmo marcar o revival de Tarantino. O de Daryl Hannah, com certeza, vai ser. Daryl faz Elle Driver, uma assassina de um olho só. Daryl está inteirona. Entra imponente, quase dois metros de mulher, na suíte do Hotel Essex, em Central Park South. É a capa deste mês da ''Playboy'' americana. Daryl nua mostra agora o que escondiam as escamas da sereia que interpretou em ''Splash'', nos anos 1980. Mas ela não quer falar de nudez nem de ''Playboy''. Diz que nosso assunto é violência, artes marciais, não sexo. Daryl está parando com a carreira de atriz. Está mais interessada na nova carreira como diretora: fez um documentário baseado em sua pesquisa com strippers para fazer a personagem de ''As Divas do Blue Iguana'', de Michael Radford, e ganhou o grande prêmio de curtas do Festival de Berlim com ''The Last Supper''.
Ela adorou trabalhar com Tarantino. ''Nunca vi um diretor que conheça tanto cinema. ''Kill Bill'' é todo feito de homenagens, mas eu quero saber quantos espectadores vão identificar os filmes em que ele se baseou. E Quentin contamina todo mundo com sua energia no set.'' Ao saber que o repórter é brasileiro, quase não quer mais falar sobre ''Kill Bill''. Amou a experiência de filmar com Hector Babenco na Amazônia. O filme era ''Brincando nos Campos do Senhor''. ''Tive uma das melhores épocas da minha vida na Rain Forest. Ficava com minha amiga Kátia Lund, que depois fez ''City of God'' (''Cidade de Deus''), a terrific film'', ela define. Foi uma experiência quase religiosa: ''A floresta tem uma vida própria, um ritmo próprio. Ficávamos ali na água, nadando, fazendo jet ski, os macacos desciam das árvores para ficar perto da gente. Tive no Brasil talvez a maior emoção que a carreira como atriz me proporcionou.''

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