São Paulo, 07 (AE) - Depois de trabalhar amplamente com dramaturgia brasileira, o Grupo Tapa quer desbravar outros caminhos. E vê dois desafios à sua frente. O primeiro deles é o lançamento de novos autores brasileiros. E o segundo, explorar em cenas o pensamento das classes dominantes, por meio de peças de autores estrangeiros como os ingleses Oscar Wilde e Bernard Shaw e o francês Anouilh. "De certa forma balizamos a grande dramaturgia brasileira já existente", avalia Eduardo Tolentino, diretor do Tapa.
Só nos últimos cinco anos, o Tapa encenou 13 peças de autores nacionais, entre elas "Vestido de Noiva" e "A Serpente", de Nélson Rodrigues e "Navalha na Carne", de Plínio Marcos. "Vamos continuar esse trabalho, mas essa vertente a gente já abriu, agora é preciso partir para novas buscas", diz. Duas peças de novos autores já vem sendo preparadas: "O Tambor e o Anjo", de Anamaria Nunes, e "Sustenido", de Hélio Sussekind.
A primeira acompanha a trajetória de uma moça dos 13 aos 20 anos e "Sustenido" acompanha uma família brasileira entre as décadas de 30 e 90. O curioso nesta segunda é que Nélson Rodrigues é um personagem. "A família discute com ele sobre a influência de sua obra sobre eles", diz Tolentino. Mas ambas as peças exigem muitos atores jovens em bons papéis, ou seja, um tempo longo de preparação. "O André Garolli (jovem ator do grupo e um dos diretores de Moço em Estado de Sítio) já está trabalhando com um terceira geração do Tapa", diz Tolentino. "Por isso, a montagem dessas peças talvez só esteja pronta no próximo ano".
O outro desafio - a abordagem das classes dominantes - chegará primeiro ao palco. "Acho importante tentar entender os mecanismos de dominação por meio da abordagem das classes ociosas, aquela pequena parcela de pessoas imune a todas as crises". Evidentemente, o diretor escolheu autores que abordam o modus vivendi dessa elite de maneira bastante crítica. Tradução - Uma nova tradução - feita pelo próprio grupo - da comédia "A Importância de Ser Prudente", com o título "A Importância de Ser Fiel", deve ser a primeira a chegar ao palco. Tolentino preferiu fiel - embora não muito comum é também nome próprio no Brasil - à palavra prudente por considerá-la mais adequada ao jogo de humor nascido do duplo sentido do termo original inglês: earnest significa íntegro e é nome próprio, Ernesto. "Fiel fica mais próximo do humor original, por exemplo
quando a personagem diz que jamais se casaria com um homem que não se chamasse fiel".
Outa peça escolhida "A Casa do Coração Partido", de Bernard Shaw, mostra um grupo de pessoas reunido numa mansão às vésperas da 1.ª Guerra Mundial. "Esses personagens são os primeiros neoliberais da história, nada os afeta, eles são charmosos, espirituosos e fica difícil rejeitá-los", diz Tolentino. "Há um personagem que se confunde com eles, mas aos poucos a gente percebe que ele é o capitalista, o testa-de-ferro; os verdadeiros ociosos pouco aparecem".
Também de Shaw é a terceira peça que vem sendo estudada, "Major Bárbara", igualmente ambientada numa elite financeira, na qual a filha de um grande capitalista entra para o Exército da Salvação. "Seu dilema é saber se aceita dinheiro dos donos das fábricas de armas e bebidas para condenar as armas e bebidas", diz Tolentino.
Na mesma linha paradoxal é construída "O Ensaio", de Anouilh, na qual um grupo de aristocratas está montando uma peça de Marivaux, o primeiro a colocar no palco o casamento entre uma criada e o patrão. Mas quando um dos nobres que está montando a peça se apaixona de verdade pela criada, todos vão conspirar contra o casamento.
"O que me atrai nesses autores é que eles não trabalham nem com a afirmação nem com a destruição dessa elite, mas mostram o seu paradoxo", afirma. "Nada melhor do que encenar essa peça agora, em tempos de não reação ao seu domínio". Mas tudo vai depender de apoio. O patrocínio do Pão de Açúcar é essencial, mas as montagens precisam de financiamento extra. (B.N.)

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