Francelino França
De Londrina
Uma das mais tradicionais formas da poesia japonesa, o Tanka é um arte que exige sensibilidade e observação aguçada da natureza. Sendo assim, até uma gota de chuva pode servir de inspiração
A essência da cultura japonesa reside no ritual. O chá é reverenciado em cerimônia, a natureza se harmoniza na preparação do Ikebana e até a elaboração da poesia é ritualizada. O Japão milenar ultrapassa os limites do tempo porque é estruturado e hierarquizado.
Inserido na cultura ritualística japonesa, resiste uma das formas de expressão poética mais tradicionais: o Tanka. Registros contam que os primeiros poemas surgiram há dois mil anos, mas podem exceder esse tempo. A tradição oral do Tanka permaneceu até a escrita se tornar soberana.
A professora Yoshiya Nakagawara Ferreira se debruça sobre esse traço da tradição japonesa, por afinidade e genética. O pai dela, Minoru Nakagawara, foi poeta laureado internacionalmente. Em seu estúdio, entre esculturas, livros e orquídeas, a professora, pausadamente, explica que o princípio do Tanka é elaborar um poema em 31 sílabas.
O Tanka pode ser definido como uma arte minimalista de manusear palavras dispostas metricamente (no formato 5/7/5/7/7), envoltas num tema ou criadas a partir de um insight sobre a natureza. Por isso, aguça a percepção dos sentidos de quem o cultiva. Frequentemente revela-se como uma forma reflexão.
Esse lavrador de palavras recorre a sua memória emotiva e aos sentidos para harmoniza-se com a natureza, produzindo algo que transita entre o etéreo e o perpétuo. E assim, brotando as idéias, floresce a poesia, transformada em ideogramas. A partir daí, é harmoniosamente cantada, numa sonoridade que remete aos mantras sagrados. Tanka tem significado transcendental pela estreita ligação com a natureza.
O Tanka é uma reflexão espiritual, busca a perfeição pelo cantar e pela articulação das palavras. O poeta precisa encontrar a palavra certa. Não deixa de ser um treinamento prático para a sabedoria pessoal e coletiva. A gota da chuva pode ser fonte de inspiração. Ou da melancolia, pode-se fazer emergir a sabedoria. Ao se reunirem para a celebração poética, os poetas conhecem a filosofia de vida do outro e cantam os poemas.
O aspecto temporal embutido no poema/estrutura Tanka eleva a temperatura poética da criação. Em função da distância entre o idioma japonês e o português, a tradução literal do poema não pode ser feita, o que se consegue é uma explicação do sentido original.
Nas estações matematicamente delineadas no Japão, o poeta é forçosamente impelido a reverenciar o tipo do sopro do vento, a cor das folhas, o perfume das flores, enfim, pequenos detalhes cotidianos. É preciso ver além daquilo que se enxerga. A produção poética é registrada em papel no Tanzaku, que nada mais é do que um suporte para escrever, com pincel, a poesia.
No caso da poesia, para escrevê-la é preciso dominar o kandi, uma das formas de se escrever o idioma japonês. No Brasil, a partir da 3ª geração de imigrantes, quase não existem descendentes que dominem esse conhecimento. O resultado disso é o ocaso em terra brasileira do Tanka. Na terra do sol nascente, de estação a estação, a tradição ainda se mantém.
Na métrica dos passos lentos e do pensar poético ágil, muitos poetas londrinenses se reúnem a cada 30 dias. Hoje, pode-se supor que tudo o que eles dizem seja poesia. Num espaço gráfico duramente limitado, quem cultiva o Tanka, carrega a poesia de forma latente e subcutânea. Oba, Seko, Takassu, Kato, Suguimoto, Koga, Nakanishi, Saka, entre outros, se encontram para mostrar a produção na Associação dos Poetas Tanka de Londrina. As idades somadas desses poetas ultrapassam mil anos.
Sobre o que eles escrevem e cantam? Sobre tudo. A encantada mata virgem nos tempos da colonização londrinense instigou a imaginação onírica dos imigrantes japoneses; a falta de estrutura social do Brasil e o sentido sagrado da terra em que pisavam estão entre os temas percorridos por esses poetas. Não se pode deixar de incluir também, uma certa melancolia em relação ao Japão.
Durante a 7ª Reunião Anual da SBPN, que está acontecendo até amanhã em Londrina, a professora Yoshiya Nakagawara Ferreira fará uma palestra denominada ‘‘A Dimensão da Natureza, do Tempo e do Espaço na Poesia Tanka’’, dentro da programação Memória e Cultura. Yoshiya falará hoje no Centro de Covenções do Hotel Sumatra sobre essa arte oriental temperada com o sabor dos trópicos.

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