Tânia Maria, a costureira que virou atriz aos 72 anos
Com ou sem cigarro, esta senhora tem causado furor por onde passa depois de sair de Santo Antônio da Cobra (RN) para as telonas
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segunda-feira, 05 de janeiro de 2026
Com ou sem cigarro, esta senhora tem causado furor por onde passa depois de sair de Santo Antônio da Cobra (RN) para as telonas

Quem viu o filme "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, com certeza saiu do cinema impactado por uma figura única: a personagem Dona Sebastiana, que extrapola os esteriótipos criando um outro, o de uma velha tão irreverente quanto confiável e sincera.
Nem todo mundo sabe, mas a atriz chegou ao cinema aos 72 anos, no filme "Bacurau" (2019), também dirigido por Mendonça Filho, que deu o que falar ao fazer uma crítica ao modo operante dos norte-americanos no Brasil, através de um enredo que mistura faroeste, ficção científica, drama e crítica ao coronelismo para mostrar a ocupação de uma pequena cidade pelos gringos. Em síntese, "Bacurau" mostra a capacidade de um povo de lutar contra a opressão. Será?
Se neste filme a cidade passa pelo mistério de sumir do mapa, foi justamente nele que Tânia Maria entrou para o mapa até chegar a uma espécie de estrelato na contramão: ela não é jovem nem bela pelos padrões vigentes de "caras e bocas". Mas a personalidade marcante e o tipo que compõe com mestria a levaram ao brilho como representante legítima do cinema nacional contemporâneo.
Isso não escapou ao olhos de Mendonça Filho que a escalou de novo para um papel em "O Agente Secreto", no qual ela se esbaldou ganhando a crítica e o público.
Com o cigarro pendurado na boca em muitas cenas, ela lembra as velhas populares de Cuba ou do sertão brasileiro, fazendo um tipo que usa a experiência de vida para a arte de ser uma protetora dos "subversivos" que precisam escapar da ditadura, aquela ditadura militar do Brasil que conhecemos de longa data.
Ela contracena com Wagner Moura (Marcelo no filme) e impressiona na composição da personagem com a espontaneidade de quem passou anos com o cigarro pendurado na boca na vida real até desistir de fumar, há pouco tempo, para poder acompanhar o elenco de "O Agente Secreto" nas viagens de avião sem depender do vício que marca sua personagem como um traço da insubordinação.
Com isso, ela não quer mais perder as oportunidades de viajar aos 78 anos, depois de desistir da participação no Festival de Cannes, na França, por causa do cigarro. Para ela, seria impossível passar horas no avião sem fumar, então, entre o cigarro e o cinema, optou pelo cinema.
TRAJETÓRIA
Tânia Maria nasceu no povoado de Santo Antônio da Cobra, zona rural de Parelhas, no Rio Grande Norte, em 1947. Antes de ganhar destaque na telona, era uma artesã e costureira que fazia peças de banheiro com material reciclado.
Antes de integrar o elenco de "Bacurau" nunca tinha ido ao cinema nem assistido a um filme inteiro, mas move-se com tanta intimidade para a câmera que parece ter nascido num set e não no sertão do Rio Grande do Norte.
Seu carisma como atriz já foi elogiado pelo New York Times que a classificou como "melhor atriz fumante." Hoje, sem fumar, Tânia Maria já está com o passaporte pronto para embarcar para Los Angeles junto com o elenco do filme para a cerimônia do Oscar 2026, para o qual "O Agente Secreto" está cotado como Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro, além de Wagner Moura estar cotado ao prêmio de Melhor Ator. A lista completa de indicados ao Oscar será divulgada em 22 de janeiro.
A FAMA
Em entrevistas, Tânia Maria conta que fumou durante 60 anos: "Fumava três carteiras por dia", disse, quando seu tipo cinematográfico começou a escalar a crítica nacional e internacional. Além disso, declara: "Ainda não caiu a ficha que fiquei famosa. Quando chego ao aeroporto todo mundo me conhece."
Ela também opina sobre seu sucesso: "Nunca pensei ser atriz, nunca", mas agora relembra como foi convidada por Mendonça Filho para ser coadjuvante em "Bacurau", ganhando R$ 50,00 por dia. "Achei bom demais!"
Ela já tem vários filmes no currículo: "Bacurau" (2019); "O Agente Secreto" (2025) como Dona Sebastiana; "Seu Cavalcanti" (2025); "O Dilema das Rosas" (2025) (curta-metragem) como Marieta; "Yellow Cake" (TBA) como Dona Rita e "Almeidinha" (TBA), e nem pensa em se aposentar.
Ainda em 2026, poderá ser vista na série policial "Delegado", no Canal Brasil, dirigida por Marcello Lordello e Leonardo Lacca, na qual atua como uma "namoradeira" que flerta com Johnny Massaro.
A série tem produção de Kleber Mendonça Filho e mostra o cotidiano pernambucano, com foco em Recife, trazendo aspectos do universo policial e da segurança pública, temas constantes no noticário de um Brasil atravessado por todo tipo de violências.
Definitivamente, a atriz tomou gosto pelo cinema, uma espécie de cachaça, dizem, para quem prova e não quer mais parar. Uma arte que conquistou Tânia Maria que, por sua vez, cativou crítica e público com o corpo franzino e uma atuação gigante.
Ela já integra a lista de grandes atrizes brasileiras em papéis coadjuvantes no cinema e na TV, como Arlete Salles, com sua veia de comediante, e Yara Jamra, que interpretou uma empregada fofoqueira na novela "O Rei do Gado" (1996). Um time que brilha paralelamente, muitas vezes roubando a cena com um talento que até pode deixar protagonistas comendo poeira.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


