"Tango", o novo longa de Carlos Saura, encanta pela dança e exuberância musical
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quinta-feira, 11 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 11 (AE) - "Tango", de Carlos Saura, é um filme agradável de ver e ouvir. Mais ainda: é deslumbrante, quando olhado do ponto de vista da fotografia de Vittorio Storaro e embalado por uma trilha sonora de primeira linha. Tango, música portenha de bas-fonds, ganha aqui status de salão. Não é exatamente Gardel ou Lepera, mas Piazzolla e Lalo Schiffrin. Requinte em vez daquela desmesura maravilhosamente kitsch dos tangos da época de ouro. Nada contra, mesmo porque ninguém, a princípio, pode se opor à evolução de um gênero, seja ele musical ou cinematográfico.
O filme faz parte de um projeto informal do espanhol Saura: mapear os epicentros musicais mais significativos do mundo. Antes de "Tango", fez "Flamenco" (no mesmo estilo visual e com o mesmo Storaro na direção de fotografia) e já declarou que pretende realizar um filme no País, radiografando a música popular brasileira. No entanto, "Tango" não é um documentário musical típico. A música, a cor e a dança, em tese, deveriam vir a serviço de uma história. Mario Suarez (Miguel ángel Solá) foi abandonado pela mulher (Cecilia Narova). Ele está tentando montar um espetáculo de tango, que usa a dança e a música para, entre outras coisas, fazer alusão direta ao período da brutal ditadura militar argentina.
Durante a montagem, ele fica fascinado pela estrela em ascensão da companhia, a novata Elena Flores (Mia Maestro). Acontece que Elena é amante de um gângster que, não por acaso, também é um dos financiadores da montagem dirigida por Mario. Um imbróglio digno de uma letra de Discépolo, aquele autor do mítico "Cambalache", não fosse um detalhe adicional: Saura joga o tempo todo com a ambiguidade entre o real e o imaginário. Não se sabe bem se o romance de Mario e Elena ocorre na realidade ou na encenação. Também é difícil dizer se o gângster é um ator figurante ou um ameaçador bandido da realidade.
Essa suspensão de certezas, esse ir e vir entre o sonho e a vida de vigília, não é desconhecida para quem acompanhou a obra de Carlos Saura. Ele fez exatamente a mesma coisa em seu "Carmem", história de uma montagem da obra de Prosper Mérimée em que nunca se sabe se o ciúme e o crime são reais ou imaginados. "Carmem" faz parte de uma trilogia espanhola, com "Bodas de Sangue" e "El Amor Brujo", balés dramáticos feitos em parceria com o bailarino Antonio Gades. Sabor de déjà vu - "Carmem", por sua beleza, mas também por seu sentido de invenção como narrativa, é nada menos que brilhante. É de 1983. O fato de Saura citar a estrutura de um trabalho bem-sucedido 16 anos depois talvez não contribua para tornar "Tango" melhor. Quem conhece o filme anterior sente um sabor de déjà vu no atual. É chato, mas é assim, e mesmo artistas consagrados, como Saura (ou talvez precisamente eles), deveriam se proteger contra as tentações da repetição. Cabe um comentário quanto a isso.
Já se disse, com razão, que todo artista elege temas preferenciais, às vezes apenas um assunto obsessivo o persegue durante a vida toda. Trabalha suas motivações internas cada vez em um nível diferente e vai evoluindo. Repete-se apenas em aparência. Na verdade, retrabalha os temas, até chegar a uma forma depurada, para não dizer ideal. Até aí, tudo bem. Mais complicada é a repetição da linguagem, da maneira de narrar, da gramática usada. Esse tipo de redundância produz sensação de esgotamento, de falta de novas idéias, de retorno a um modo de expressão que já disse a que veio e cumpriu seu papel. Dá impressão de que o artista não soube se reciclar e ficou preso ao passado.
Além disso, "Tango" passa certa esterilidade na maneira meio canhestra e deslocada de se referir à política, no caso, ao regime militar argentino. Há uma certa estetização dos crimes militares, uma impressão fake e diluída que não se atenua nem com o poder de interpretação de Miguel ángel Solá, um grande ator. Um desses raros atores que conseguem transmitir uma emotividade interiorizada, que não precisa de gestos largos ou de grandiloquência para atingir seus objetivos. Mas nem ele, nem ninguém em seu lugar, conseguiria superar o artificialismo de certas passagens do filme.
No entanto, quando o espectador quase se sente derrotado por essas sequências menos felizes (para dizer o mínimo), é novamente trazido para o filme pela beleza da dança, pela emoção da música e pela paleta de cores escolhida por Storaro, certamente orientado por Saura. Como tudo, ou quase tudo, se passa no interior do teatro onde a montagem está sendo preparada
o fotógrafo pode caprichar na variação cromática por meio de painéis semitransparentes e espelhos. Tudo é estetizado, embora sejam raros, ou inexistentes, os momentos daquele tipo de beleza convulsiva, quando a forma artística verdadeira se manifesta para valer.
Falta mesmo um pouco de conteúdo a "Tango". Como se o desejo de contar uma história, ou desenvolver um conceito, ou comentar um fato, tivesse ficado, de longe, em segundo plano. Saura vai à música, à dança, à cor. São de tal modo exuberantes que não sobra espaço para muita coisa mais. Talvez seu erro tenha sido não assumir de vez o fascínio pelo material que tinha em mãos. Deveria ter feito um documentário logo de vez. Como, aliás, foi o caso de "Flamenco", que não precisou de nenhum plot para se justificar.
Por isso, aquilo que há para ser compreendido no filme, a trama propriamente dita, pode ser facilmente esquecida. Não interessa, de fato. Sobra a música, a grande música argentina, e a dança sensual, que saíram ambas do andar de baixo da sociedade e se requintaram sem esquecer sua origem plebéia. "Tango" vale por relembrar a vitalidade essencial dessa grande arte popular.


