São Paulo - Na madrugada de Sexta-Feira Santa, os tambores rufam compassados em Antigua, aos pés do vulcão Água. O som crescente da percussão anuncia o começo das celebrações da Paixão de Cristo na mais devota das cidades da Guatemala, país de predominante ascendência maia em que 75% da população, de 12 milhões de pessoas, professa a fé católica. Tem início um dos raros momentos em que a abissal discrepância social entre a esmagadora maioria indígena e a elite de raiz espanhola se dissipa junto com a fumaça dos incensários usados para purificar as ruas da mais bela cidade do país.
As ruas são cobertas por tapetes de cores intensas, confeccionados com areia, serragem e flores, a essência natural da nação conhecida na América Central como a ''terra da eterna primavera''. Formam-se passarelas acarpetadas por onde enfileiram-se os cucuruchos, personagens representativos dos penitentes. Os flashes das máquinas fotográficas estrangeiras disparam sem parar: ofuscam a vista e lampejam o caminho dos homens e das crianças com capuzes roxos. Milhares de turistas, de acordo com o Instituto Guatemalteco de Turismo (Inguat), acompanham os festejos da Semana Santa todos os anos.
Essa festa de cores, cheiros e miscigenação social encerra tradições populares comuns aos países católicos. Missas e procissões preenchem o calendário de eventos. Os membros das diversas ordens religiosas formam séquitos, muitos deles seguidos pelos visitantes. Há, também, notáveis elementos oriundos do sincretismo religioso entre a fé ancestral nos deuses maias e os tradicionais símbolos cristãos.
Fundada em 1527 com o nome de La Muy Noble y Leal Ciudad de los Caballeros de Santiago de Guatemala, Antigua surgiu como centro monástico, chegou a ter 33 igrejas, e foi capital do país até ser arrasada por um terremoto, em 1773. Reconstruída, a cidade carrega atualmente o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Unesco. (F.V./AE)

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