Tamanho é documento?
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segunda-feira, 13 de julho de 1998
Amir Labaki Agência Folha 
Sexta-feira, o público brasileiro pode tirar a prova: será Godzilla tão ruim quanto disseram? A contrapropaganda já quase equivale à megapublicidade que precedeu seu lançamento americano, em maio passado.
Tamanho Conta, Sim, exclamavam outdoors gigantescos distribuídos por pontos turísticos de Nova York - a cidade-alvo da nova investida do monstro. Enredo Conta, Sim, gracejaram inúmeros críticos americanos. Para Joe Leydon, da Variety, faltaria ao monstro um coração. Stephen Holden, do The New York Times, achou o megalagarto não-convincente. No USA Today, Mike Clark bateu na tecla da história fraca e dos personagens subnutridos.
Nem Hollywood poupou a mais cara produção deste verão americano. Não é preciso esperar o final para saber que o investimento em Godzilla (cerca de US$ 120 milhões na produção e de US$ 50 milhões em divulgação) almeja renovar uma franquia cinematográfica que já rendeu em quase meia década mais de 20 filmes e séries de TV.
Em Armageddon, de Michael Bay, que traz Bruce Willis evitando a colisão de um asteróide com a Terra, um cachorro abocanha um Godzilla de brinquedo. O ataque extrapola a guerra nas bilheterias: Godzilla entupiu as lojas com cerca de 3.000 produtos; Armageddon chegou depois e com uma oferta menor.
Em Arquivo X, o Filme, David Duchovny urina no cartaz de Independence Day, o filme anterior dos padrinhos de Godzilla, o diretor Roland Emmerich e o produtor-roteirista Dean Devlin. No site da Internet da nova série Guerra nas Estrelas, cujo primeiro episódio está previsto para
daqui a um ano, lê-se: Enredo Conta, Sim. Na mesma linha, a publicidade do infanto-juvenil Small Soldiers, de Joe Dante, que acaba de estrear, garante: Tamanho Não É Tudo.
O vale-tudo não surpreende no ultracompetitivo e instável mercado americano de filmes, precisamente em seu mais forte período. Godzilla abriu a temporada, com um marketing agressivo. Prometia bater o recorde de arrecadação num lançamento nesta época e chegou perto com seus US$ 74 milhões em três dias. Foi pouco.
No último fim de semana, aproximava-se de dobrar a marca da estréia, contando apenas o mercado americano. A marca final deve ficar bem aquém dos US$ 250 milhões previstos, restando aos produtores torcer pelo desempenho no mercado externo para sair do vermelho. Apenas as expectativas infladas e o desmesurado orçamento fazem cifras dessa magnitude soarem como fracasso financeiro. Tampouco se voltarmos para o campo estritamente fílmico parece justo descartar de pronto Godzilla. Em seu gênero, megaprodução cinescapista baseada em efeitos especiais, a concorrência recente, de Parque dos Dinossauros e ID4 aos atuais Impacto Profundo e Armageddon, é francamente pior. Para início de conversa, Godzilla é um clássico camp, e Emmerich e Devlin reverenciam a tradição.
Godzilla é o King Kong pós-Hiroshima da produtora Toho no Japão, nove anos após o fim da Segunda Guerra. O nome original é Gojira, combinando as palavras japonesas para gorila e baleia. O monstro que se voltava contra Tóquio seria o resultado de uma mutação provocada pelos testes nucleares americanos nas ilhas Bikini. O novo filme atualiza a trama, creditando o aparecimento da besta aos polêmicos testes atômicos franceses no Pacífico Sul. A responsabilidade gaulesa justifica a internacionalização dos protagonistas. Godzilla avança sobre Nova York e é combatido tanto por forças americanas quanto por especialistas franceses.
O par central do filme conta assim com um jovem cientista americano (Matthew Broderick) e um charmoso agente francês (Jean Reno). Há muito mais química entre eles do que no pretenso casal formado por Broderick e uma ex-namorada que tenta subir como telejornalista (Maria Pintillo). No mais, Godzilla ataca Manhattan, revela-se uma fêmea prenha, é morta, mas deixa no Madison Square Garden ovos suficientes para uma centena de continuações. Tudo somado, trama por trama, não dá para considerar a de Godzilla mais fraca do que a da concorrência. Há que se reconhecer que duas horas e 18 minutos é tempo demais para contar essa história. Os efeitos são profissionais, mas nada trazem de novo. E há o monstro. Quando Godzilla assustou pela primeira vez uma platéia, a revolução dos efeitos especiais ainda não aproximara o cinema do parque de diversões. Não passava de um baixinho vestindo uma fantasia de plástico. Nem toda a tecnologia de ponta vence a sensação algo nostálgica de que o original era mais aterrador.
Não, respondendo à pergunta do começo, Godzilla não é tão ruim assim. A verdadeira questão é outra: quantas vezes o cinema americano terá que salvar a humanidade até descobrir que o que está mesmo em extinção é a vida inteligente em Hollywood?


