Grupo de Teatro do Assentamento Dorcelina Folador, em Arapongas, encerra hoje oficina com João das Neves. Evento faz parte dos ‘‘Projetos de Maio’’ do Filo
Os integrantes do Assentamento Dorcelina Folador, localizado em Arapongas (37 km a oeste de Londrina), participam pela terceira vez dos Projetos de Maio, do Festival Internacional de Londrina (Filo). Dessa vez, o autor, diretor, ator e produtor teatral João das Neves integra o evento ministrando oficina de preparação de atores durante 15 dias para o Grupo de Teatro Filhos da Terra. João das Neves também selecionou uma filmografia em que pudesse destacar células rítmicas de personagens dos filmes e introduzir a parte teórica da oficina. Dentre os filmes selecionados estão ‘‘Luzes da Cidade’’, de Charles Chaplin e ‘‘Sonhos’’, de Akira Kurosawa. Hoje é o último dia da oficina em Arapongas, sem um espetáculo como resultado da prática teatral. É o processo que interessa.
No ano passado a atriz e diretora Bya Braga, da Universidade Federal de Minas Gerais, assinou a direção da montagem ‘‘A Padaria Nossa’’, uma adaptação do texto de Bertold Brecht com as histórias de vida dos atores. A peça percorreu assentamentos em Maringá, Lapa e Alvorada do Sul, além de se apresentar no calendário do Filo. Mas as apresentações minguaram e ‘‘A Padaria...’’ teve uma vida útil curta. Agora, a intenção dos participantes da oficina é a de levar poéticas do assentamento para outras comunidades, sem prejudicar as atividades fundamentais da comunidade.
João das Neves observa que uma oficina por ano não é suficiente para uma formação adequada e ultrapassar a fase do abecedário (reclamação generalizada em outras oficinas dos Projetos de Maio). A figura de um agente teatral morador do assentamento poderia impulsionar do grupo. ‘‘Precisamos nos aprofundar e consolidar para fazer um trabalho mais adequado’’, reitera Renato Reinerh, um dos líderes da comunidade que abriga 94 famílias.
Regina Borges, que surpreendeu como atriz na peça ‘‘A Padaria é Nossa’’, explica que nessa fase de apropriação de conhecimentos, eles estão se preparando para serem futuros atores e atrizes. Uma das características do grupo é o alto nível de politização, independente de faixa etária e grau de escolaridade. Vânia Camargo defende a idéia de que o teatro é uma forma de mostrar o que é realmente o MST. ‘‘A mídia passa uma imagem ruim nossa’’, diz.
Pelo que sinalizou no encontro com a imprensa em Arapongas, o Grupo de Teatro Filhos da Terra pretende se valer do teatro como instrumento de transformação social, empregando esforços para modificar a realidade. Os atores também procuram acompanhar os espetáculos do Filo e já assistiram à ‘‘Trama’’ e ‘‘Além da Pele’’, com o Cisne Negro; ‘‘Stella do Patrocínio’’, com Clarisse Baptista e ‘‘Tímon’’, com Os Privilegiados.
João das Neves percebe que há vocações escondidas na comunidade e com um trabalho sistemático, elas irão surgir inevitavelmente. Os ensaios do grupo acontecem numa casa que, por enquanto, é o embrião de um Centro Cultural no Assentamento Dorcelina Folador. Num microcosmo do assentamento, é preciso quebrar barreiras para que o teatro seja reconhecido. Isso porque o trabalho na lavoura fica parado enquanto os atores se qualificam na arte teatral.
A cada 15 dias, a comunidade realiza um encontro denominado Mística. Faz parte da Mística a dramatização de fatos importantes ocorridos no movimento, a música e a poesia, canalizados para motivar a luta e os ideais do movimento. Essa prática valoriza a tradição oral e tem uma função psicanalítica, importante para amalgamar o projeto de sociedade igualitária

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