Talento versátil
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de dezembro de 2010
Márcio Maio<br>TV Press 
A ideia de interpretar um italiano sempre agradou Bruno Gagliasso. O próprio sobrenome evidencia as origens - sicilianas - do ator. E sua família tem até um restaurante especializado na culinária do país cujo idioma aparece no título da novela ''Passione''.
''É claro que eu já conhecia muito da cultura, mas estudei bastante. Precisava mesmo de um personagem leve, divertido, com pitadas de humor'', explica ele, que ainda estava muito marcado por sua atuação como o esquizofrênico Tarso de ''Caminho das Índias'' quando começou os trabalhos no folhetim de Sílvio de Abreu. O sucesso de Berilo, seu personagem em ''Passione'', fez com que Bruno fosse escolhido o melhor ator coadjuvante no ''Prêmio Melhores & Piores de TV Press'' de 2010.
Às vésperas do término de ''Passione'', Bruno já sabe que não terá descanso depois que as confusões entre Berilo e suas duas esposas, Jéssica e Agostina, de Gabriela Duarte e Leandra Leal, terminarem. O ator prefere não dar detalhes, mas ele já está confirmado na próxima novela das seis da Globo, ''Cordel Encantado''. Na trama, escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes, viverá seu primeiro personagem central em uma novela: o vilão Timóteo. ''Fico muito feliz por colher os frutos de uma carreira construída a passos longos'', afirma o artista, que estreou na tevê em 2000, na pele do estudante Rodrigo de ''Chiquititas Brasil'', do SBT.
Faltam poucos capítulos para terminar ''Passione'' e o triângulo formado entre Berilo, Agostina e Jéssica ainda é um dos assuntos mais comentados da história. O que você acha que favoreceu essa repercussão?
Sempre soube que esse núcleo ia acontecer. Não tinha como dar errado. O elenco parece ter sido escolhido a dedo. Além disso, a novela foi muito marcada por questões dramáticas e misteriosas. Nesses casos, os núcleos cômicos acabam se destacando porque representam a leveza, o respiro. Isso a gente percebe nas próprias reações de público.
O que você notou de diferente nessa abordagem popular?
Nas ruas, é muito engraçada a forma como as pessoas chegam. Elas se sentem mais íntimas. Parece que estão vivendo aquela situação junto com os personagens, se sentem próximas. Vivem dizendo ''você não vale nada'', essas coisas. O Berilo foi muito malandro, conseguiu ser cara de pau, descarado e sem vergonha. Um personagem que qualquer ator gostaria de fazer, que tem tudo que busco em um papel. Ele faz o público rir e, por isso, a receptividade é mais calorosa.
Você normalmente é escalado em papéis coadjuvantes e acaba se destacando no decorrer dos capítulos. Sente falta de verem você como um protagonista?
Essa percepção é engraçada, porque aposto que muita gente deve ficar surpresa ao saber que eu nunca fiz um protagonista. Mas isso é maravilhoso, é um sinal de que venho de papéis de sucesso em tramas paralelas. Vejo todo mundo falando que um dia quer fazer um protagonista, mas todos os meus trabalhos foram encarados dessa forma. Acho que isso transparece no ar. E é essa a direção que dou para a minha carreira. Vejo gente que perde papéis excelentes por pura vaidade. Não quer? Tranquilo, mas manda para mim!
Mas seu nome já está confirmado como o grande vilão da próxima novela das seis...
É verdade. E essa notícia veio numa hora em que eu realmente não esperava. Já tinha outros projetos para o ano que vem, estava decidido a viajar e morar fora. Minha ideia era passar, pelo menos, quatro meses viajando por Paris, Londres, Barcelona e Nova Iorque. Eu nem acho bacana falar sobre essa novela agora porque ainda não acabei ''Passione''. Acho deselegante. Quando a Amora me convidou, ela disse que pensou em mim para o papel. E a Amora é uma pessoa que respeito muito. Além de uma grande amiga minha, ela também é uma grande diretora. Isso vale mais do que qualquer protagonista, antagonista, seja o que for.
Você já mencionou que queriam o Júnior, em ''América'', afetado. É complicado desenvolver suas intenções quando elas são contrárias ao que é pedido?
Acontecem papos construtivos. Mas já tive de convencer algumas pessoas na minha carreira, sim. O Júnior pintava as unhas das pessoas. Você acha que eu não corri pelas beiradas? No fim da novela, ele era de bom gosto e ouvia música clássica. Por que o gay tem de ser manicure e cortar cabelo? A maior prova de que isso deu certo foi a aceitação. Olha, não vou mentir, fiquei muito triste com o corte do beijo. Muita gente ficou. Mas me senti aliviado porque uma barreira foi quebrada nos últimos anos e meu trabalho ajudou. O gay sofre como qualquer um, ama como qualquer um e foi essa a mensagem que a gente passou.
Recentemente, a Globo cortou mais um beijo gay, desta vez na série ''Clandestinos - O Sonho Começou''. Como você encarou isso?
Sou ator, trabalho com arte. Em arte, não cabe censura. Sou completamente contra qualquer tipo de censura. Mas, por outro lado, acho que as pessoas estão preocupadas demais com o beijo. Na verdade, isso é o que menos importa. O beijo é só a consequência de um sentimento puro entre duas pessoas. A partir do momento que esse sentimento é transmitido, o resto é o resto. A gente não pode deixar de exigir, como cidadão e telespectador, que mostrem esse sentimento.
Para fazer a próxima novela das seis, suas férias serão curtas. Você fez praticamente uma novela por ano desde que assinou com a Globo. Não está cansado?
Sou fã de uma galera de artistas que fazia novelas ao vivo. Me espelho nessas pessoas, quero me tornar um deles no futuro. Para isso, a prática é o melhor exercício. Enquanto me oferecerem personagens que valham a pena, vou aceitar. Essa coisa de descansar a imagem não serve para mim. Não por agora. Talvez sentisse vontade de parar um pouco se estivesse fazendo a mesma coisa sempre. Não sou de ficar recusando trabalho.
Você já recusou papéis por achar que não valeriam o esforço de emendar?
Na Globo, as pessoas já sabem o que eu curto e o que vai me deixar balançado. O Sílvio de Abreu, por exemplo, quando me convidou para ''Passione'', sabia que iria ficar amarradão para fazer. Ele é muito amigo do Gilberto Braga, que me conhece bem. Os autores normalmente me oferecem personagens de muita construção, o que adoro. Respondendo sua pergunta: com frequência, não. Mas acontece. É normal. Acho que em qualquer área isso rola.


