Talento verde e rosa que encantou Villa-Lobos
Conta a lenda - não, não é lenda, é verdade -, que o grande Villa-Lobos ia à Mangueira só para ouvir os sambas de Cartola. Um dia, disse ao compositor: ''Não estuda, não. Você faz tudo errado, mas fica lindo!'' Nem o mais exigente dos críticos ousaria contestar o criador das ''Bachianas Brasileiras''. Cartola, nascido Angenor de Oliveira, podia ser um talento intuitivo, mas também era refinado, o que pode parecer uma contradição, em termos, mas no caso dele virava uma combinação perfeita.
Cartola atravessou o século do samba, desde o seu nascimento, como um dos fundadores da Mangueira, em 1928 - foi quem escolheu as cores da escola, verde e rosa -, até sua aceitação no mercado fonográfico dos anos 60 e 70. Sua trajetória inclui muitos afastamentos da Mangueira, motivados por desilusões amorosas, bebedeiras e dívidas. Nos anos 50, chegou a ser dado como morto.
Que Cartola tenha sido redescoberto lavando carros só contribuiu para o mito. Mas Cartola, que teve seus altos e baixos, financeiros e emocionais, nunca foi um marginal. Em 1974, aos 63 anos, o compositor que já vinha criando desde os anos 30 (e até antes), iniciou nova carreira, a de cantor. Foi quando ele gravou seu primeiro disco, ''Cartola'', na gravadora Marcus Pereira, que fazia, na época, um importante trabalho de mapeamento da MPB, provocando a declaração entusiasmada do crítico José Ramos Tinhorão, que escreveu: ''De agora em diante, cantor que for gravar samba de Cartola vai ter de ouvi-lo primeiro, para aprender.''(L.C.M.)





