Escrever, assim como cozinhar, exige talento e dedicação. Estes pontos em comum fazem com que muitos autores se dividam entre a culinária e a literatura com igual paixão. Alguns deles estão reunidos na Antologia ‘‘Brasil: Receitas de Criar e Cozinhar’’, organizado por Patricia Bins e Dileta Silveira Martins, lançado pela Bertrand Brasil.
O livro tem receitas de Edla Van Steen, Érico Veríssimo, Celso Japiassu, Esdras do Nascimento, Lya Luft, Moacyr Scliar, Luís Fernando Veríssimo, Nélida Pi¤on e Olga Savary, entre outros. Uns têm fórmulas infalíveis para produzir textos e seguem à risca as receitas de família quando o assunto é culinária. Outros, escrevem de acordo com a inspiração e, na cozinha, fazem tudo a olho, baseados apenas nos ingredientes encontrados na despensa.
Tata Pimentel, apresentador de programas de televisão em Porto Alegre (RS), lembra, no prefácio do livro, das ‘‘personagens gastronômicas’’ presentes nas grandes obras da literatura, ressaltando que não só elas comem; os autores também bebem e comem. ‘‘Em troca das migalhas da mesa versalhesca de Luís XIV, Corneille e Racine compuseram sua obra, e La Fontaine, que jamais trabalhou, entre uma fábula e outra servia-se de um lauto café da manhã de seu benfeitor’’, escreve Tata, que também se pergunta: ‘‘Verlaine e Rimbaud teriam amado e escrito sem um copo de absinto?’’
Ele afirma que ‘‘a feitura de um livro requer temperos, técnicas e talento, como muitas de nossas velhas cozinheiras, que faziam odorar pela sala a compota de goiaba’’. No arroz-de-carreteiro de Moacyr Scliar ou na forma como Lya Luft se deixa dominar por uma personagem, ‘‘Brasil: Receitas de Criar e Cozinhar’’ oferece alimento para o corpo e para mente, e mostra que saciar a fome pode ser muito mais do que descongelar no microondas o prato preparado no mês anterior.

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