Talento sem fronteiras
A fama não sobe à cabeça do compositor Victor Biglione. Ele já tocou com mais de 180 figuras da MPB, como Caetano Veloso, Gal Costa, Djavan, Chico Buarque e João Bosco, para citar alguns. No exterior, foi um dos poucos brasileiros que se apresentaram no Blue Note, o templo do jazz em Nova York, que já acolheu Miles Davis, Jorge Benson e Dizzy Gillespie. Sou humilde. O importante é a música, diz com modéstia. Mesmo sem dar importância para a fama, o nome de Victor chegou aos ouvidos do guitarrista do grupo The Police, Andy Summers. O resultado foi o convite para gravar Strings of Desire, um CD que conjuga o virtuosismo de Victor com as notas precisas de Andy.
Victor encarou o convite com naturalidade. O único receio era não combinarmos musicalmente, admite. Foram meses de faxes e telefonemas entre a casa do músico, no Rio, e o estúdio de Andy, em Los Angeles. Tudo acertado, Andy finalmente veio ao Brasil para encontrar-se com Victor. No nosso primeiro encontro tocamos mais de 50 músicas, espanta-se. O entrosamento deu tão certo que Andy arriscou até a composição de um samba, a faixa Samba For Counting The Days, a única composição solo dele no disco.
O casamento musical reúne compositores ecléticos, como Egberto Gismonti, Tom Jobim, Dizzi Gillespie, João Gilberto e Dave Brubeck, unidos pelo estilo jazzístico de apresentar o tema e partir para o improviso. Com o domínio de quem conhece a guitarra há mais de 28 anos, Victor não teve dificuldades para improvisar - recurso que desenvolveu ainda quando tocava no Centro Livre de Aprendizagem Musical do Zimbo Trio. Foi uma grande escola, observa. De lá, o músico partiu para a estrada, em shows dos cantores da MPB. Não poderia faltar no currículo também uma passagem de três meses pelo consagrado Berklee College of Music, em Boston. Berklee é uma grande escola, mas um bom músico não depende somente de boas escolas, ensina.
A formação musical de Victor Biglione, na verdade, vai além da música. Tive uma boa educação, explica. Nascido na Argentina e naturalizado brasileiro, o músico costumava ser levado pela mãe para exposições de pintura, cinema e shows. Cresci escutando Jimmi Hendrix, Rolling Stones e assistindo a filmes de Luis Bu¤uel, conta. A considerada contracultura dos anos 60 e 70 sempre esteve presente. Foi por isso que escolhi a guitarra, um símbolo de rebeldia, explica. Hoje, porém, Victor reconhece que o instrumento perdeu muito do rótulo rebelde. Com poucas exceções, a guitarra hoje é tocada de forma despretensiosa. Falta dedicação dos músicos, critica.
O compositor passa, pelo menos, duas horas por dia dedilhando o instrumento. Gosto de tocar. Nunca fiz nada pensando em sucesso ou dinheiro, jura. A dedicação levou Victor a experimentar outras possibilidades musicais como a trilha de cinema, composta para o filme Como Nascem os Anjos, de Murilo Salles. Para fazer cinema tem de ser malandro. Não adianta fazer uma música linda que vai chamar mais atenção do que a cena. Tem de haver uma complementação., dá a receita.
A grande paixão, no entanto, é tocar ao vivo. A troca com o público é uma experiência única, reconhece. A maior emoção foi no Festival de Montreal, no Canadá, quando o músico tocou para mais de 5 mil pessoas. Nunca vi tanta gente me aplaudindo com tanto entusiasmo, emociona-se. Foram cinco minutos de aplausos que conquistaram o músico e garantiram a inclusão do Canadá nas turnês. Já toquei até com 40 graus abaixo de zero num festival universitário, conta.
Não é só no Canadá que Victor garante público. O músico já lançou cinco discos no Estados Unidos e tem suas composições tocando nas rádios de jazz. O novo disco vai ser o sexto lançado no mercado norte-americano, dessa vez com o aval de Andy Summers. É mais uma porta que se abre, admite. Além do lançamento simultâneo nos Estados Unidos, Victor aproveita para lançar também um songbook com biografia e composições aqui no Brasil.Luiza Dantas/Carta Z NotíciasVictor Biglione: Cresci escutando Jimmi Hendrix, Rolling Stones e assistindo a filmes de Luis Bu¤uelFábio Dobbs
Cult Press





