Curitiba - Em breve, filmes clássicos representantes do Cinema Novo, como ''Garrincha, a Alegria do Povo (1963) e ''O Padre e a Moça'', podem estar passando num cinema perto de você. Espalhadas pelo mundo e reféns do tempo, as cópias originais dos filmes dirigidos pelo cineasta carioca Joaquim Pedro de Andrade foram resgatadas pelos filhos dele, Maria, Antonio e Alice de Andrade, e fazem parte de um projeto inédito além de caro e ousado de restauração patrocinado pela Petrobras. São seis longas e oito curtas-metragens, entre eles pérolas como ''Macunaíma'' (1969), talvez a película mais popular do diretor que morreu em 1988.
O projeto de restauração começou há dois anos, quando os filhos do cineasta garimparam os arquivos originais, além de materiais complementares, espalhados pela França, Bélgica, Portugal, Estados Unidos, Cuba e Brasil. Eles também entraram em contato com profissionais que trabalharam com o cineasta e conseguiram a adesão de fotógrafos como Afonso Beato, Pedro de Moraes e Mário Carneiro, parceiros do cineasta.
A filmografia do cineasta está sendo restaurada em tecnologia digital, com investimento de US$ 1 milhão, mas um outro projeto já prevê a transferência do material pronto para película, além da melhor estratégia de divulgação posterior, como o lançamento comercial e a distribuição em DVD. Parceiros interessados não faltam para essa nova parte do projeto. Distribuidoras da França e Estados Unidos já entraram em contato, conforme adiantou Alice Andrade em entrevista, por telefone, à Folha.
Alice que também é cineasta e acaba de lançar seu primeiro longa-metragem ''O Diabo a Quatro'', (leia texto nesta página) revela que todo o projeto está sendo um árduo trabalho de ''detetive''. ''O trabalho de pesquisa é grande. Primeiro resgatamos os negativos originais depois fomos 'juntando os pedaços' do que encontramos. Alguns fotogramas faltavam pedaços, outros estavam muito deteriorados pelo tempo'', conta. Segundo ela, o filme mais difícil dos 14 que estão sendo restaurados foi o ''Padre e o Moça'', cujo original era um dos menos conservados de toda a filmografia.
O trabalho de pesquisa também trouxe à tona revelaçãos importantes sobre a obra de Andrade. O negativo original do filme ''O Mestre de Apipucos'', por exemplo e diversas cópias foram localizados na Cinemateca Brasileira, na Funarte e em cinematecas no exterior. Originalmente concebido como um único filme, ''O Mestre de Apipucos'' e ''O Poeta do Castelo'', foram separados em dois curtas-metragens independentes. O trecho de ligação entre os dois filmes foi cortado do negativo original e poucas cópias restaram para provar que o filme seria um só. Após muita pesquisa e trabalho com o filme propriamente dito, a equipe optou por preservar os curtas independentes como o diretor havia preferido. O trecho de ligação será usado como ''extra'' em DVDs e não será restaurado.
De todo o material, cinco filmes já tiveram a restauração digital. São os já citados ''O Mestre de Apipucos'', curta-metragem de 8 minutos datado de 1959; ''O Poeta do Castelo'', curta de 1959); ''Couro de Gato'', curta de 12 minutos de 1960; ''A Linguagem da Persuasão'', de 1970) e ''Vereda Tropical'', de 1977. A tecnologia utilizada na restauração digital é a mesma utilizada em ''O Grande Ditador'', de Charles Chaplin. A meta dos filhos do cineasta é encerrar a primeira parte do trabalho, que prevê essa restauração, ainda este ano e no próximo ano dar início à busca de patrocínio para distribuição. ''Temos que pensar qual a melhor estratégia'', conclui Alice.
A idéia é realizar, além de mostras no Brasil e exterior, a produção de um catálogo trilingue, além de uma caixa de DVD's contendo todo o material restaurado mais o making off do trabalho de restauração, que está sendo feito concomitantemente ao projeto de recuperação dos filmes do cineasta.
Joaquim Pedro de Andrade nasceu no Rio de Janeiro, em 25 de maio de 1932.
Filho de Rodrigo Melo Franco de Andrade, fundador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e de Graciema Prates de Sá, passou a infância no Rio e em Minas Gerais, entre os mais importantes intelectuais brasileiros da época. Para Andrade, Manuel Bandeira era não apenas um poeta, mas o padrinho de crisma e um dos melhores amigos de sua família.
No final da década de 80, numa bateria de exames clínicos, o cineasta foi diagnosticado com câncer nos pulmões, mas mesmo durante o tratamento não interrompeu suas atividades. No hospital, ele colaborou no roteiro de ''Dente por Dente'', da filha Alice e escreveu o argumento para o filme ''O Defunto'', baseado na obra de Pedro Nava: seu último roteiro costuraria as histórias dos seis livros que integram as memórias do escritor: ''Baú de Ossos'', ''Balão Cativo'', ''Chão de Ferro'', ''Beira-mar'', ''O Galo das Trevas'' e ''O Círio Perfeito''. Andrade morreu em 10 de setembro de 1988.

mockup