Talento premiado
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Edinelson Alves<br> Especial para a Folha 2 
Elifas Vicente Andreato é considerado no cenário cultural brasileiro uma espécie de doutor das artes. Curiosamente ele é um autodidata. Nasceu em Rolândia em 1946 onde viveu parte de uma infância difícil mas cheia das lembranças do interior. Começou a trabalhar muito cedo e foi alfabetizado quando já era adolescente e morava em São Paulo. O dom artístico do menino projetou o desenhista, cenógrafo, artesão e jornalista com direto a incursões na música e no teatro. Pelo conjunto da sua obra, Elifas irá receber hoje, no Rio de Janeiro, a Ordem do Mérito Cultural, o mais alto prêmio da Cultura Brasileira.
Seus trabalhos se tornaram referências em formato de capas de discos dos principais músicos brasileiros, de livros e de revistas, painéis, cenários de shows, de teatro e de programas de televisão, além de troféus criados para ocasiões especiais. Quarenta destas obras serão enviadas para o Museu de Rolândia. ''São capas de discos que marcaram época, a série sonhos de cartões de Natal, um retrato de minha infância, cartazes de teatro e trabalhos que realizei na imprensa'', detalha Elifaz.
O artista também sonha em adquirir o barracão da antiga marcenaria que foi fundada por seu avô, no centro de Rolândia, para abrigar ali parte do seu acervo, e ao mesmo tempo dar oportunidade para crianças em oficinas de artes. ''A educação é o caminho para a grande mudança de nosso país. Espero ainda trabalhar como educador, não apenas ensinando técnicas artísticas, mas passando para as futuras gerações a importância de acreditar no Brasil, nas suas múltiplas manifestações culturais e também acreditar na nossa gente'', revela.
O menino que saiu de Rolândia com 12 anos, com seus pais e irmãos, para morar na Vila Anastácio, periferia de São Paulo, nunca podia imaginar que sua vida profissional fosse dar um salto tão grande num período tão curto. Com 14 anos, aprendiz de torneiro mecânico na Fiat Lux, começou a ilustrar o jornalzinho da empresa. O gerente da indústria o convidou para fazer os painéis que enfeitavam o salão da empresa onde se realizavam bailes. Quando a Fiat Lux completou 50 anos de Brasil, Elifas, então com 15 anos, foi convidado para decorar o salão nobre para receber os visitantes, inclusive um grupo de ingleses. Foram eles que o incentivaram a deixar a fábrica em busca de um novo horizonte profissional.
Considerado um menino prodígio pelos desenhos que expressavam dor e denunciavam as desigualdades sociais, Elifas desenhava para uma agência de publicidade quando o diretor de arte da Editora Abril, Atílio Basquera, viu um outdoor que ele havia criado. Foi o passaporte, em 1967, para conhecer os mais respeitados jornalistas e intelectuais da época. De estagiário ele chegou a diretor de arte da Abril e estampou sua arte nas principais publicações da editora: Veja, Placar, Quatro Rodas, Realidade, Cláudia e outras.
''Quando a ditadura militar passou a tomar conta do país senti que era preciso tomar uma atitude. Mesmo trabalhando na Abril, toda sexta-feira à noite eu embarcava para o Rio de Janeiro para o fechamento de edição do semanário Opinião. Quando foi preciso tomar uma decisão, deixei para trás o bom salário da Abril e mergulhei de cabeça no Opinião, mesmo correndo risco de vida. Era a causa maior do meu país me chamando e eu não podia ficar de fora. Sempre fiz o que acreditei. Nunca perdi tempo com bobagens. Minha arte está ligada a história da minha trajetória de vida'', explica.
Defensor incansável da cultura brasileira, sua trincheira nos últimos 10 anos tem sido a revista Almanaque Brasil, publicação mensal distribuída aos passageiros da TAM. Devido à falta de apoio, ele diz que tem sido um desafio gigante manter esse projeto vivo. ''Muitos já me aconselharam a desistir, mas eu resisto'', diz, não escondendo a tristeza.
Entre suas muitas criações, a coleção História da Música Popular Brasileira foi considerada um projeto revolucionário, porém, Elifas também destaca um outro trabalho que considera precioso: A Canção de Todas as Crianças. ''Escrevi essa fábula como letras de músicas a partir da Carta dos Direitos das Crianças da ONU e o Toquinho colocou as melodias. Recebemos até o reconhecimento da ONU por esse trabalho, mas ele ainda precisa ser descoberto e valorizado pela sua profundidade e importância. Esse é um legado que deixo para o futuro''.


