Talento para viver
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sexta-feira, 16 de setembro de 2016
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 


"Contar esses anos todos me deixa confusa. Não são anos. São meses, dias horas, instantes. Flagrantes instantâneos fugidios mais que lembranças lógicas descritíveis. Chegam fragmentados e mixados como num painel fascinante de cores vivas e soturnas onde se confundem sentimentos desencontrados e flashes luminosos de cenas desbotadas." Assim começa a descrição de Nitis Jacon, em seu texto de abertura do livro "Memória e Recordação Festival Internacional de Londrina 40 anos", lançado em 2010. Oito anos depois de ter concluído seu extenso trabalho de mais de 350 páginas, a tarefa de recordar o passado torna-se cada vez mais árdua. Mas os sentimentos que algumas memórias remetem continuam ali, pulsantes e vivos, só esperando o momento de aparecer para brilhar.
Atriz, diretora teatral, produtora cultural e médica psiquiatra, impossível resumir a história de Nitis a apenas uma dessas facetas. Ela é muitas em uma e uma em muitas. Tanto que não dá para dissociar sua atuação frente às atividades que, no primeiro momento, parecem ser totalmente incompatíveis. Ledo engano. Seu talento na vida da arte e na arte de viver se dividiu para multiplicar os vários papéis que sempre desempenhou com maestria e personalidade. Definitivamente, um personagem ativo, marcante e criativo do cenário londrinense que teimou e ainda teima em ser notado frente às grandes capitais do país afora.
"Tudo caminha junto. Você não imagina o que eu ganhei no teatro por causa da medicina para lidar com o problema de quem sofre e precisa de ajuda e compreensão. Sempre fui uma observadora da realidade e a realidade sempre me emocionou muito. Se era a realidade má, a realidade da tristeza, a realidade da injustiça, o teatro me ajudava a lutar para que as coisas fossem melhores", diz ela, em uma conversa despretensiosa, porém não menos importante, na biblioteca de sua casa em Arapongas, cômodo onde guarda parte de sua história e de Londrina espalhada pelas estantes e paredes. Este, inclusive, é um dos locais preferidos da linda e espaçosa residência, na qual passa seus dias atualmente numa rotina bem tranquila.
Linguagem que transforma
Nitis acaba de completar 81 anos, coincidentemente o aniversário foi no dia estreia da edição do FILO deste ano, quando foi fortemente aplaudida, ainda que não estivesse presente fisicamente. As palmas calorosas só mostraram que, por mais que não esteja à frente da coordenação nos últimos anos, é impossível separar sua imagem a do festival, sinônimo de resistência e transformação até hoje. Também pudera, os herdeiros da missão, os "meninos" como ela chama, tiveram como exemplo uma figura inquieta e com forte presença e articulação política não partidária que tornou o evento conhecido e respeitado em todo país e exterior, principalmente pelo intercâmbio de ideias, linguagens e produções entre os grupos, diretores e autores.
E lá se vão 48 anos somente de festival que, dentre as incontáveis atrações, trouxe figuras importantes da arte mundial como Eugenio Barba, do Odin Teatret, sediou uma edição do ISTA (sigla em inglês para Escola Internacional de Antropologia Teatral) e Kazuo Ohno em sua emblemática encenação sob um palco flutuante no Lago Igapó. "Muitos desses contatos e amizades eu fiz em minhas andanças por encontros, congressos e eventos na América Latina e, também, na época em que fiquei exilada em Londres." Se a repercussão estética reverbera até hoje, sua preocupação era, antes de tudo, a de causar reflexão. "Buscava sempre espetáculos ou textos voltados a linguagens que fizessem as pessoas pensarem." Não raras as vezes, mostrando a realidade do país e exploração das diferenças sociais e humanas.
"Me orgulho do meu passado, da história que construí e do que vivi. Considero que foi tudo fascinante, mas também sofrido, com muitos percalços ao longo do caminho. Toda minha vida foi assim, de luta e batalha. Mas isso me fez muito forte e chegar à maturidade me deixa muito tranquila. Hoje eu vejo a vida com mais sabedoria. Eu fui uma viajante do espaço, do tempo. Vivi bem, mas também gosto da minha vida de agora, mais tranquila. Estou feliz aqui neste paraíso com meus cachorros, com este jardim lindo, minha biblioteca cheia de coisas de vários lugares. Gosto de sentar no quintal e contemplar as árvores que plantei. Hoje, estou aqui, assistindo a esse mundo que vivenciei", conta.
'MINHA MEMÓRIA, AGORA, ESTÁ EM VOCÊS'
A decisão de se afastar do festival não ocorreu da noite para o dia. Nitis foi passando a batuta aos poucos para que a orquestra teatral não perdesse o compasso. "Houve muitos momentos de dúvidas e incertezas, mas fui fechando alguns portões. Confesso que sofri muito para abandonar os 'meninos', mas percebi que eles precisavam andar sozinhos sem mim. E que eu, principalmente, tinha que abandoná-los, tinha que viver um pouco a minha vida. Sou feliz de ter criado algo que prosperou." Nitis assumiu a coordenação do FILO em 1971, transformando-o no evento que é hoje. Depois disso, presidiu o Teatro Guaíra, em Curitiba.
Mas a relação dela com a arte já era forte. Muito antes havia fundado o GRUTA, grupo teatral de Arapongas. Em 1968, criou o grupo Núcleo, formado a partir do Festival Internacional Universitário de Teatro Universitário. Logo após, nada mais que por três décadas, dirigiu o PROTEU (Projeto Experimental de Teatro Universitário), grupo que teve atuação marcante na cultura de Londrina nas décadas de 70, 80 e 90. Foi ainda uma das responsáveis pela criação do curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ao mesmo tempo, exercia a psiquiatria em um hospital de Rolândia e outro em Arapongas. Na vida familiar, três filhos e o marido. "Eu não parava, dormia muito pouco. Mas queria experimentar de tudo na vida. Posso ter errado bastante, mas acho que no final tudo deu certo." Sim, deu tudo certo. Está dando.
"Preciso falar mais alguma coisa?", pergunta Nitis, propondo um café em seguida. A conversa termina em risadas e em um clima muito descontraído. E, ainda que a lembranças insistam em falhar ou que as histórias se misturem, ela não precisa mais contar nada, provar mais nada para ninguém. Mesmo assim, se desculpa pelas recordações não muito claras e com um belo sorriso diz: "Minha memória, agora, está em vocês." Elegantemente coberta com uma pashimina, conduz todos pela casa rumo à mesa com café da tarde mostrando os espaços, sua parede repleta de retratos, seus cachorros e o belo jardim que mencionara.


