Talento para a maldade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de julho de 2010
Arcângela Mota<br>TV Press 
Márcio Garcia se esforça para manter o semblante sério e os olhos apertados ao falar do sanguinário Maurício, seu personagem no seriado ''Na Forma da Lei'', da Globo. Mas bastam poucos minutos de conversa para o descontraído ator de 40 anos deixar a postura rígida de lado e transparecer toda sua empolgação em fazer o grande vilão da trama de Antônio Calmon. Entre muitos adjetivos e longas análises do personagem, Márcio se mostra confortável em interpretar mais um mau-caráter na tevê, tipo que lhe rendeu seu maior destaque como ator em 2003, quando viveu o michê Marcos de ''Celebridade''. ''É muito mais fácil para o ator quando você tem um personagem muito bem definido. Acho que, na história da Globo, nunca houve um vilão que botasse tanto a mão na massa quanto o Maurício'', especula o ator.
Nos últimos sete anos, três dos quatro personagens que você fez na tevê eram vilões. O que o Maurício traz de novo?
O Maurício é um psicopata que tomou gosto pelo assassinato, veio do berço da impunidade e é capaz de tudo para conseguir o que quer. Matar 15 pessoas em oito episódios é muita coisa. Ele é um vilão açougueiro. Um personagem que exigiu muito de mim por ter uma carga forte demais. As cenas de raiva eram complicadas. Eu saía pesado e algumas vezes nem consegui comer depois. Mas o trabalho do ator é esse. Tem de segurar.
O seriado dialoga com conhecidos formatos norte-americanos. Você buscou referências neles para compor o Maurício?
Sempre tem inspiração em algum seriado estrangeiro, mas as referências que busquei foram basicamente do filme ''O Profissional'', de Luc Besson, que conta a história de um assassino profissional que protege uma menina que tem os pais mortos por policiais corruptos. Acho o Maurício muito parecido com o personagem do Gary Oldman, que era um policial viciado em drogas. É uma pessoa que mata sorrindo, não se sente culpada e fica feliz quando vê a vítima.
Mas você precisou de algum treinamento específico?
Eu já tinha certa intimidade com as armas. Fiz aulas de tiro para outros trabalhos e sei que o mais difícil é não reagir ao barulho e manter a postura. É claro que o ator nem precisa saber atirar. Eu aprendi porque achei bacana na época. No seriado, usei armas cenográficas e de verdade. Hoje tem muito mais restrições do que há algum tempo, por questão de segurança. Mas é interessante. Estudei um pouco mais e vi alguns vídeos na internet para me atualizar. Também malhei bastante e fiz exercícios para melhorar o meu condicionamento físico.
Depois de 16 anos atuando em novelas, como é a experiência de protagonizar um seriado?
Trabalhar em uma obra fechada é mais legal. Você lê a história inteira e já sabe direitinho qual rumo tomar. Na novela você começa a fazer e de repente muda tudo. Passam a gostar ou desgostar do personagem e ele vai de bom a mau de uma hora para outra. Sem contar que um seriado já vai ao ar com quase tudo pronto. Não espera um ''feedback'' do público para a coisa mudar. O vilão geralmente tem um final infeliz, que é o que todo mundo quer. Em um seriado desses você já começa com data para morrer. E isso é muito bom.
Você saiu da Record, em 2008, com a promessa de ter um programa na Globo, que até agora não aconteceu. Como está sua situação na emissora?
Eu não tinha um projeto específico quando vim para a Globo. Voltei para a emissora com três contratos: diretor de criação, ator e apresentador. Exerço a função que tiver de exercer. A Globo cobriu o meu salário na Record e ofereceu a chance de fazer outros trabalhos. Sempre trabalhei em quatro mãos. Nunca fui de criar sozinho. Trabalho com outras pessoas que me ajudam a desenvolver as ideias. Assim é e assim será.
Mas você já tem algum projeto em andamento?
Sim, a gente tem um projeto que ainda está no forno e tem sido guardado a sete chaves. A questão é adequar e pontuar as ideias para fazer um piloto. Mas estou na boa. Não estou fazendo nada com pressa. Não precisa de correria. Sou um jovem ainda, tenho 40 anos.
- Na Forma da Lei - Globo - Terças, 22h50.


