Talento masculino
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de junho de 1998
Zeca Corrêa Leite 
A presença masculina está em falta no balé nacional. Até poderia contar com mais profissionais se não houvesse um forte preconceito no caminho. Por essa precariedade o Teatro Guaíra tomou uma medida inédita ano passado - buscou nas classes mais carentes de Curitiba possíveis talentos da dança. Entrou em contato com o setor de programas sociais da Prefeitura Municipal de Curitiba e através de seus coordenadores conseguiu 25 garotos para ter aulas na Escola de Danças Clássicas.
A maioria era formada por ex-meninos de rua e para contornar a situação o professor Carlos Cavalcanti começou as aulas dando noções de dança folclórica russa, espanhola, polonesa. Era mais que necessária a virilidade. A street dance foi o xodó dos alunos. Aos poucos começaram a aparecer os talentosos. No dia 24 de junho de 1997, o grupo subiu ao palco do Guairinha para sua primeira apresentação pública. Foi um sucesso.
A dança tem o dom de chegar a territórios inexplorados. A coréografa e bailarina Márika Gidali, do Balé Stagium, levou-a aos indígenas da Ilha do Bananal, mas para o então menino Wanderley Lopes, morador na Casa do Pequeno Jornaleiro, a arte do movimento descortinou-se por inteiro na tela de um televisor. É uma história muitas vezes contada do garoto que após essas imagens vistas com fascínio, lutou durante anos até conquistar o intento de aprender balé.
Para quem fugia das instituições oficiais de regeneração de menores, pela violência dos funcionários, a mudança foi do inferno para o céu. Wanderley, que hoje é primeiro bailarino do Balé Teatro Guaíra, já dançou em palcos de Portugal, da França, do Japão entre outros países, ao lado da mulher, Eleonora Greca. Dançar nem sempre é somente um bom negócio - é o passaporte para outra vida.


