A cantora, compositora e poeta londrinense Neuza Pinheiro é um desperdício. Dona de timbre peculiar, faz páreo a qualquer uma das vozes femininas emergentes tão badaladas pela mídia, mas continua relegada ao ostracismo. Talentosa, gravou um disco e escreveu um livro que ainda não foram desfrutados pelo público.
Agora, depois de muito tempo distante de platéias, ela parece ensaiar uma volta aos palcos. Na semana passada, fez dois shows no Sesc Pompéia, em São Paulo. Hoje se apresenta em Curitiba.
Neuza batizou o show de ''Profissão de Febre'', título de um poema de Paulo Leminki (1944-1989). O espetáculo é um tributo ao poeta curitibano reunindo seus textos sob arranjos musicais. Na capital paranaense ela se apresenta no Wonka Bar, onde fecha uma noitada que contará com a abertura da exposição ''Os Invisíveis'' de Guile Dias e a apresentação de fragmentos da peça ''Final do Mês'' dirigida por Alexandre França.
No palco, além da obra de Leminksi, a londrinense vai interpretar poemas e composições autorais.
''Não canto com muita frequência, mas continuo levando meu trabalho para frente. Vou fazer 60 anos em junho e sinto que, cada vez mais, estou apurando e refinando minha sensibilidade. Percebo que toda a minha trajetória foi útil para isso, que não importa que eu não tenha tido um grande retorno. Tudo está mais leve e mais fácil agora. Estou atingindo um estado de magia e transe que é resultado de toda essa batalha. O que ficar de minha obra, será o melhor de mim'', diz ela, que trabalha como educadora para a Prefeitura de São Paulo.
Radicada em Santo André (SP), a artista despontou no início da década de 80 ao lado de Itamar Assumpção (1949-2003) e Arrigo Barnabé, então expoentes da geração que ficaria conhecida como ''vanguarda paulistana''. Em 2003, gravou em Londrina o CD ''Olodango'', que até hoje não teve show de lançamento na cidade.
O disco traz composições próprias, além de poemas musicados de Leminski (''Cabeça Cortada'') e Arnaldo Antunes (''Dúvida 2'' e ''Pensamento 3''); uma versão ao vivo de ''Londrina'', de Arrigo Barnabé; e uma canção dos londrinenses Ângelo e Luciano Galbiati (''Aranha Mecânica''). Sem gravadora, selo ou distribuidora, ela tira cópias do CD de acordo com as folgas do orçamento.
Como poeta, Neuza permanece inédita em livro ''solo'', embora tenha participado de antologias e publicado em revistas ou colunas literárias de jornais. Foi na FOLHA, aliás, que ela publicou pela primeira vez seus poemas. Recentemente, venceu o 1º Prêmio Nacional de Literatura Poeta Lúcio Lins, promovido pela Fundação Cultural de João Pessoa (PB), com o projeto de livro de poemas ''Pele, osso & um punhado de trégua''.
Mas o que deveria ser motivo de comemoração, trouxe uma dor de cabeça. ''Devo entrar com um processo na Justiça contra os responsáveis pelo concurso. Eles divulgaram o resultado em dezembro do ano passado, mas até hoje não me entregaram o prêmio de 3 mil reais e a promessa de publicar o livro com tiragem de 500 cópias. De lá para cá, sempre dizem que estão providenciando'', reclama.
O livro, segundo ela, traz um ''sumário'' de sua produção poética. ''Coloquei ali o que achei que tinha de mais forte e intenso em 20 anos de criação'', salienta. Neuza está atrás de patrocínio para a gravação do espetáculo ''Profissão de Febre''. Ela conta que começou a musicar poemas de Leminiki em 1984, quando o conheceu apresentada pelo compositor Itamar Assumpção.
''Foi a partir desse encontro que parti para escrever poesia com mais seriedade'', revela. Neuza já musicou mais de 50 poemas do poeta. O show de hoje à noite é mais uma homenagem ao autor.

SERVIÇO
- ''Profissão de Febre''
Quando - Hoje às 21 horas
Onde - Wonka Bar (R. Trajano Reis, 326 em Curitiba)
Quanto - R$ 1,99
Mais informações - Tel. (41) 3026 6272 e 9142 0810

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