Um espaço para firmar a marca pessoal de ser diferente. Desde 1997, o Grupo de Teatro para Atores Especiais (G.T.P.A.Ê.) possibilita que jovens portadores de deficiência intelectual expressem sua criatividade e sejam conhecidos muito além das aparências pelas quais são geralmente percebidos pela sociedade. Projeto de extensão da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o G.T.P.A.Ê. também funciona como prática de estágio para os alunos de 5º ano de Psicologia.
O trabalho com os atores especiais é realizado por meio de laboratórios semanais e aborda questões relevantes para os jovens, como sexualidade, preconceito, afetividade, namoro, casamento, drogas, prostituição, diferença entre fantasia e realidade e experiências vividas durante as apresentações. Todas as decisões relativas à peça são tomadas pelo grupo, através de votação.
Os atores são responsáveis por toda a concepção cênica, desde a história até os cenários. ''As novidades vivenciadas por eles na vida real são transportadas para o palco. O teatro desenvolve as habilidades pessoais e sociais, além de fortalecer a auto-estima, autoconfiança e autonomia. O produto final não é a peça, mas os benefícios trazidos'', aponta a coordenadora do grupo, Solange Leme Ferreira, professora do Departamento de Psicologia Social e Institucional da UEL. Um outro objetivo do G.T.P.A.Ê. é educar a platéia para rever concepções, sentimentos e condutas pessoais frente à deficiência mental.
Os monitores auxiliam na mediação do processo criativo dos atores e na busca por uma solução racional e sensata dos conflitos. ''As apresentações também facilitam a inclusão social do grupo. Aqui conseguimos vê-los como pessoas e não como deficientes'', afirma a estudante de Psicologia Aline Cristina Carta.
Atualmente, 12 jovens integram o G.T.P.A.Ê, que na sexta-feira estreou a sua quinta montagem - ''Cenas da Vida''. Juliane Martins de Melo, 32 anos, já é uma atriz experiente. No grupo desde 97, ela já interpretou personagens densos como uma cadeirante traída pelo marido e uma jovem depressiva. Em ''Cenas da Vida'' ela dá vida a Fabíola - uma prostituta, e Safira, dançarina. ''Quis interpretar esta personagem porque assim como as prostitutas também somos vítimas do preconceito. Já aconteceu de pessoas não sentarem perto de mim no ônibus'', exemplifica. Amadurecimento emocional e maior capacidade de socialização foram os principais benefícios trazidos pelos teatro. ''Antes era muito emburrada e teimosa'', conta.
Aos 26 anos, Gregório José Castro Vicentini estuda, trabalha, namora e ainda tem tempo para o teatro. No G.T.P.A.Ê. desde 1999, o ator sonha participar de uma novela. Ele mostra desenvoltura interpretando um jovem que quer curtir a vida e um médico que trata uma paciente drogadicta. ''Com o teatro melhorei minha auto-estima e autoconfiança. Também percebi evolução nos meus colegas. Todos respeitam a opinião alheia'', garante.
''O G.T.P.A.Ê. me dá luz e afeto'', sintetiza o mais novo integrante da equipe, Elias Lourenço Haddad, 19 anos. Há pouco mais de um ano, o ator, que também fotografa e pratica tae kwon do, se recusava a ingressar no grupo. Hoje, contabiliza os ganhos. ''Consigo enfrentar o público. Não me irrito mais com o barulho e as pessoas conversando'', afirma.
Haddad também cita outros aspectos trabalhados no teatro - cuidados com a postura, aparência, dicção, independência para viajar sozinho durante as apresentações e conviver com pessoas que possuem as mesmas dificuldades. ''O teatro veio em ótima hora porque o Elias tinha dificuldades em se socializar e a família, para protegê-lo, também evitava os eventos sociais. Hoje ele vai às festas e conversa com as pessoas'', comenta a mãe, Maria do Carmo Haddad.

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