Talento de sobra
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de novembro de 1997
Antônio Mariano Junior Londrina 
Renato Russo e a capa do último disco (foto inferior): canções em inglês e italiano gravadas em oito faixas
Toda homenagem póstuma tem lá suas segundas intenções. Ainda mais quando tal reverência se resume a juntar sobras de gravação de uma das principais referências da poesia pop brasileira. E com Renato Russo a coisa também não foi diferente. Pouco mais de
um ano depois de sua morte, a gravadora Emi-Odeon está lançando O Último Solo que traz, em quase trinta minutos de gravação, oito faixas - quatro em inglês e outras quatro em italiano - que, por um motivo ou outro, acabaram não entrando nos dois discos solos do cantor e compositor: The Stonewall Celebration Concert (94) e Equilíbrio Distante (95).
Só foi possível O Último Solo sair do forno por um motivo muito especial: Renato tinha por mania trabalhar em excesso. Ou seja, tanto em discos solos quanto com o Legião Urbana, sempre sobravam algumas músicas que acabavam por ficar de fora na edição final do CD, por uma questão de tempo - normalmente um CD, por imposição da fábrica, nunca pode ultrapassar os 70 minutos. Ele (Renato) sempre dizia brincando que seus discos começavam triplos, passavam a duplos e acabavam simples- informa Augusto.
Prova disso é que em The Stonewall Celebration Concert o repertório inicialmente escolhido contemplava 48 músicas que baixaram para trinta e, no final acabou ficando com 20 faixas. O mesmo aconteceu em Equilíbrio Distante - de 21 músicas trabalhadas, apenas 13 foram incluídas no CD.
E nesse mar de números é que coube ao tecladista Carlos Trilha selecionar quais as sobras que tinham condições de passar por uma assepsia sonora. Cada música sofreu um processo diferente já que, por exemplo, algumas faixas tinham vozes com vazamento- adianta. Duas das mais trabalhosas: Ti Chiedo Onesta e I Loves You Porgy (em que Trilha refez o piano a partir da voz de Renato Russo).
Pois muito bem. Por sua vez, a gravadora diz que a intenção é das melhores. É um disco que não ficou nada barato mas assim mesmo não medimos esforços para produzi-lo- adianta João Augusto, diretor artístico da gravadora. Isso pode ser constatado em duas faixas - The Dance e Il Mondo Degli Altri - que tiveram inclusão de cordas gravadas no Estúdio de Abbey Road, em Londres.
Os arranjos de cordas ficaram a cargo de Graham Preskett que já deu o ar de sua graça em discos de algumas outras estrelas da MPB, como Maria Bethânia e Simone. O diretor da gravadora, entretanto, não soube precisar o custo total da produção. Ele adiantou apenas que o disco chega às lojas com uma tiragem provável de 300 mil cópias que, dependendo da boa aceitação serão multiplicadas quantas vezes for preciso. Não trabalhamos com previsão de venda- diz ele.
Como se trata de um disco para fãs já que não tem muito peso dentro da discografia de Renato Russo, o Último Solo vem com um chamego a mais: uma faixa multimídia para CD-ROM que traz, além das músicas do disco, um clip com a música Strani Amore e uma entrevista de 12 minutos em que Renato Russo faz suas elucubrações costumeiras a respeito de um punhado de coisas.
Com avalO Último Solo sai com o devido aval da família de Renato Russo. Tanto que na entrevista coletiva, concedida dias atrás no Rio de Janeiro, havia a presença de um senhor cuja serenidade para responder às perguntas do jornalista chegou a impressionar: Renato Manfredini, pai do cantor e compositor. A princípio um tanto quanto calado. Mas tão logo sentiu-se confortável falou, pausadamente, sobre o disco e também sobre o pensamento e relacionamento com o filho, assumidamente rebelde. Rebelde não, autêntico.
Manfredini disse que, no disco, preferiu trabalhar na retaguarda. Ou seja, deixou a gravadora trabalhar como bem entendesse com o material que tinha em mãos. Em outras palavras, confiança total. A ele coube dar título ao trabalho que possui duplo sentido. Chama-se O Último Solo porque, obviamente, ele não vai cantar mais. O outro solo são as flores de um jardim que ele escolheu para que fossem jogadas suas cinzas- avisa.
Para justificar o último solo conotativo, a família escolheu um quadro denominado Flores, pintado em 87, pela irmã de Renato, Carmen Teresa Manfredini. Escolhemos esse quadro porque ele (Renato) sempre dizia que mais cedo ou mais tarde a tela iria para seu apartamento- informa Manfredini. Outro toque familiar: a caligrafia da contracapa do CD é de Giuliano Manfredini, filho do cantor e compositor.
Quanto ao relacionamento com o filho, Renato Manfredini, mesmo com uma certa discrição, revela que apesar da fama de rebelde o filho sempre foi apegado à família. Sim, era preciso um certo tato. Mas a partir dos 17 anos, quando tornou-se independente, dando aulas de inglês, nunca mais invadimos sua área- avisa.
Porém, Manfredini destrava a língua mesmo quando é para falar sobre a obra - fabulosa - do filho. Admite que não gosta de rock mas, em função da escolha de Renato, passou a apreciar e, consequentemente, admirar principalmente as letras de Renato Russo. Ele sempre foi um estudioso das particularidades humanas e isso pode ser encontrado em suas letras. Se fizerem uma análise de suas letras poderão constatar onde ele queria chegar: à perfeição e explicar a fúria do mundo- analisa.
A família, como explica Manfredini, vem cuidando com muito zelo do legado deixado por Renato Russo. Biografia? Está descartada. Recebemos solicitações de vários aventureiros nesse sentido e todas foram negadas. Renato não precisa de biografia porque toda sua vida foi expostas nas diversas entrevistas que concedeu- avisa.
Pouco antes de terminar a entrevista, o pai do compositor não deixou de dar uma farpinha a um famoso cantor que disse, em entrevista, que seu filho não sabia cantar. Eu gosto muito da voz do Renato. Mas esse cantor tem o direito de achar o que quiser, não é mesmo?- diz. Depois de alguma insistência, o nome: Nelson Gonçalves. Fica a pergunta: como nunca teve papas na língua o que será que Renato responderia a esse monstro sagrado da MPB?
O jornalista Antônio Mariano Junior viajou a convite da gravadora Odeon.


