Takeshi Kitano vai à guerra
Na última sexta-feira, o frisson dos bastidores no Festival de Veneza ficou por conta da coletiva de Harrison Ford e Michele Pfeifer, intérpretes de What Lies Beneath (Revelações, lançamento brasileiro no próximo fim de semana). Os dois e o diretor Robert Forret Gump Zemeckis estão em Veneza para a exibição da premiere européia do filme, aqui fora de concurso. Impressionante a devastação que o tempo promove: ainda ontem Ford era o garotão espacial Hans Solo de Guerra nas Estrelas e o furacão aventureiro Indiana Jones. Às vesperas dos 60, um amarrotado Ford ficou ainda mais maltratado à sombra de uma Michelle Pfeifer perfeita, embora meio distante e desinteressada.
Muito sangue e pouco cinema, numa única jornada. O coreano Seom (A Ilha),
de Ki-Duk Kim, reedita este ano, embora em menor escala, o escândalo que o conterrâneo Mentiras causou em Veneza ano passado. Em doses pouco mais contidas, de novo a violência sadomasoquista num triângulo de arrepiar: um homem, uma mulher e uma ilha. O detalhe: uma espectadora não identificada passou mal durante a sessão, interrompida para os primeiros socorros. O filme, em concurso, de fato causa mal estar, mas não exatamente pela explicitude das diversas formas de tortura e flagelação, mas pela ruindade mesmo. O curioso é que o francês Sade, exibido um dia antes, por motivos óbvios o habitat natural do repertório de perversões, comparativamente acabou se revelando tão pudico quanto o chá da cinco da liga de velhinhas cristãs.
Também em competição - já tinha sido recusado pela seleção de Cannes, em maio ultimo - aparece Denti, o segundo italiano a perseguir os favores do júri. Não é para impressionar, a não ser talvez pela desconcertante originalidade. Dirigido por Gabriele Salvatores, Oscar de filme estrangeiro em 90 por Mediterrâneo, o filme é literalmente puro Freud depurado no sofá, ou melhor, na cadeira do dentista. O personagem central, Antonio (Sergio Rubini) desde a infância teve problemas com os dentes, enormes, embaraçantes, impossíveis de esconder. Já adulto, separado e com dois filhos, Antonio afinal tem a chance de ajeitar seus dentes depois que Mara, a mulher com quem vive, bate em sua boca com um cinzeiro durante uma briga. É o início de uma via-crucis, de consultório em consultório, de dor em dor, de recordação em recordação.
Salvatores disse na coletiva que tudo aquilo que experimentamos na vida não se deposita no cérebro, mas em nossos órgãos. Nos dentes, nos ossos, sob a pele. Queria que meu filme fosse muito físico, corpóreo, afinal patológico. Baseado em romance de Domenico Starnone, Denti não faz rodeios e vai direto ao nervos; ataca as gengivas e procura a raiz, deixando o público com as mãos crispadas na poltrona e dando graças que é apenas uma sala de exibição. Para Salvatores, os traumas de Antonio não se obturam e nem admitem prótese. Extrair é a solução, ainda que radical e muito, muito dolorosa.
E para fechar uma maratona exaustiva e penosa, o japonês Takeshi Beat Kitano, cineasta e ator com trânsito intenso e acolhida entusiástica no eixo Cannes-Veneza, apresentou seu projeto mais recente, uma produção anglo-nipônica filmada nos Estados Unidos. E ao contrário do lírico, leve, calmo O Verão de Kikujiro, Kitano promove uma carnificina através da luta entre máfias.
Em Brother, Kitano é Yamamoto, um solitário pistoleiro da Yakuza, a máfia japonesa. Depois que a ordem interna das famílias se altera, ele perde a confiança dos chefes, se torna incômodo e é obrigado a se mudar para os Estados Unidos. Em Los Angeles encontra o irmão caçula Ken, envolvido no tráfico de drogas com alguns companheiros negros. Em pouco tempo forma uma gang, limpa a área e constitui uma exemplar organização criminosa que passa a controlar um grande território, via tráfico de drogas. O confronto com a máfia americana é apenas uma questão de tempo, e o destino de Yamamoto começa a ser traçado de maneira irreversível rumo ao desastre.
Brother é única e exclusivametne um filme de ação, e não adianta buscar nada além disso. Não há no roteiro simples e esquemático nada além da expressão da fúria humana, de resto visão recorrente e característica na obra de Kitano. E o filme, de uma atordoante violência gráfica, expressa à perfeição o paradoxo ambulante que é este cineasta de fisionomia stone face, inescrutável. Enquanto na Europa o conhecem por seus dramas, no Japão é idolatrado por seu irreverente e sempre bem-humorado talk show televisivo, onde faz tudo para arrancar muitas risadas de um público sempre fiel. Pois este humor está presente em Brother na forma do encontro improvável e explosivo entre um yakuza ritualístico, um negro do submundo da Califórnia, a minoria hispânica e a máfia italo-americana. Do encontro entre culturas diversas com interesses criminosos comuns resulta um banho de sangue com poucos precedentes na história cinematográfica da guerra entre quadrilhas.





